O CAMINHO DE UM SANTO

Artigo da Semana
Ano Marelliano

O CAMINHO DE UM SANTO

Cristina Borzacchini



As vicissitudes humanas de uma figura que entre as dificuldades, os anseios e as dúvidas como cada um de nós, soube elevar-se a fim de tornar-se um  ponto de referência. Que agora a Igreja propõem com a canonização.

            Alto de estatura, de aspecto belo, de cabelos negros, olhos vivazes e penetrantes, sempre com um sorriso  nos lábios, de comportamento digno, de modos afáveis,  de conversação agradável, inteligência aguda, memória prodigiosa:  este é o retrato de José, aos vinte anos. José Marello, o “jovem de ouro”, que responde a um retrato deveras cativante. Porque o percebemos de verdade como um homem comum, com certezas e dúvidas, animado porém por uma reta intenção e convicções firmes. Nascido em Turim, aos 26 de dezembro de 1844, numa família exemplar, vive a infância e juventude em um clima de hostilidade em relação a Igreja que consegue até apagar os entusiasmos das pessoas mais  fracas. É a época da unidade da Itália, do nascimento do Grande Oriente Italiano e dos  mitos: Garilbaldi, Mazzini, Cavour. Mas, também, de uma outra estirpe de grandes personalidades quais: Giuseppe Cottolengo, Don Bosco, Leonardo Munaldo, Francesco Faà di Bruno. O jovem Marello, entrou aos doze anos no seminário  de Asti; num momento de crise é atraído pelos ideais mais “humanos” e animadores, e não mais pelo sacerdócio.
            Que deveria fazer? Entre uma certa corrupção e dissipação  da juventude, em um  momento no qual podia ser fácil presa de entusiasmo reformador, após um período no qual vive como um bom cristão  no mundo,  jovem que “escrevia” em latim fluentemente, discursava Filosofia e projetava estradas”, pede de voltar para o seminário e com  grande satisfação o Vigário Capitular comentou: “Ao Marello escancaramos as portas e os portões!” Um  santo não mais, ao contrário daquele que se pode pensar, um “ser” superior, mas uma pessoa que, talvez mais agudamente de outras, vive o ideal evangélico seriamente e mergulhado no cotidiano, que tem o sabor do desconforto e dos projetos de um futuro incerto . É um salto no escuro, mas com a firme convicção de “crer sempre logicamente e tenazmente” esta posição o colocará somente 22 anos e ser quase um profeta em relação à cultura daqueles que define “livres escravos e pensadores”.
  Reconhece-se nele a imagem de respeitável chefe, de homem que dá certeza, que sabe aquilo que é bom, do homem erudito, mas  sábio, que diz sem meios termos: “A Igreja ainda possui recursos tais que faz tremer os seus inimigos... (C 18). “As portas do Inferno não prevaleceram... e ainda “Hoje em dia a oração tornou-se o maior e mais poderoso apostolado. (C  22). Rezemos e façamos rezar...” O seu ardente desejo  de exprimir com a vida interior e com o apostolado o mistério cristão,  vivido em silêncio e operosidade pelo Patrono São José, o levará  “a fundar em Asti uma Congregação  Religiosa cujos membros, chamados Oblatos de São José,  tivessem  por finalidade ...  imitar as suas virtudes, procurando uniformizar a sua vida com a vida pobre, humilde e escondida do Santo”. A todos aqueles, aos quais com  grande humildade Pe. José pede conselhos, pareceu que “a coisa viesse de Deus”, e uma vez que a ele foi clara a vontade divina procurou almas generosas e corajosas que pudessem empreender com ele uma estrada nova.
  Desde que foi consagrado “sacerdos in aeternum”, aos 19 de setembro de 1868, a sua atividade como secretário do Bispo o levou antes de tudo a conhecer  de perto as necessidades da Igreja local, como também da Igreja universal, com a sua participação ao Concílio Vaticano I. Com o passar do tempo e com a aquisição cada vez mais de experiência no  ministério sacerdotal, o vemos sempre orante, silencioso e ativo. Semelhante ao pai de Jesus, da qual o Evangelho não apresenta uma só palavra, mas que foi homem de ação e de fé. E com o estilo de São José, esboça “o regulamento da Companhia”, baseado no marco inicial de São Bento, voltado para o essencial “Não deve ter o Irmão  alguma coisa de próprio, nada de tudo; não sendo por nenhum  motivo lícito ter em seu arbítrio nem o próprio corpo e nem a própria vontade”.
Da formulação teórica àquela prática: no ano de 1878 Pe. José fez uma peregrinação em um lugar agora  conhecido Ars, onde no ano de 1859 morria o Santo Pe. Giovanni Maria Vainney, que com a sua simplicidade tinha conquistado e convertido uma cidade, apontado por religiosos e bispos como exemplo e transformação de um humilíssimo ministério, que  tocava os corações e as consciências adormecidas. Não era um doutor o pequeno padre de veste gasta, mas era de alma grande, e Pe. José tinha necessidade de tirar inspirações e força de pessoas deste porte espiritual. Aqui em Ars, chamados pelo padre Giovanni Maria Vainney, já moravam há alguns anos os Irmãos da Sagrada Família fundado por Gabriele Taborin e Pe. José gostou do hábito deles, uma batina preta com a faixa também preta nos lados. “Os meus irmãos se vestirão assim”, disse satisfeito.  E em 19 de março de 1879, festa de São José, os primeiros seis irmãos com grande alegria vestiram o hábito. Era um pequeno grupo, mas Pe. José enxergava longe. E de forma bem clara, um dia falou aos seus que se lamentavam: “Um jovem tinha semeado  grãos de feijão e com freqüência ia ver se cresciam.  Vendo-os crescer devagar, inquieto para vê-los crescer,  um dia os puxou da terra até quase com as raízes... cresceram, mas também secaram”. A conclusão lógica era que  se devia crescer não  em número, mas na qualidade: e o mesmo princípio era adotado também para com aqueles que se  dirigiam a ele para uma direção espiritual, como as irmãs Greca, Bice e Jole Graglia.
Qual é o segredo de uma personalidade completa e clara como aquela deste novo Santo?  O célebre estudioso domenicano padre Garrigou-Lagrange escreveu dele: “Este fundador dos Oblatos de São José foi um filho predileto da Santíssima Virgem” e com este escudo forte,  um baluarte que o defendeu das incompreensões e dificuldades,  se empenhou em viver anunciando aos irmãos a Palavra  na vida.
Consagrado bispo de Acqui no ano de 1889, não se concedeu descanso, não conheceu medo perante qualquer dificuldade, quando o dever o  chamava: não se poupou perante as necessidades.  Moderado de palavras, era generoso de ação: tímido em aparência, era na realidade de uma santa audácia, sempre que da audácia precisasse armar-se. De índole doce, soube ao seu tempo ser santamente forte.
Paciente, não deixou que a sua proverbial calma fosse conduzida para além de um justo limite. Bom com todos, ele não teve e nem pode ter inimigos; os adversários,  os desarmava com a amabilidade de sua palavra, de seu  olhar, de seu jeito. Ele costumava dizer que  somente a bondade conquista os corações. E acrescentava: “A ironia, o sarcasmo, o desprezo não tem feito bem a quem quer que seja, não  converteu ninguém!” E como falava, assim fazia.
Morreu em Savona em 30 de maio de 1895, oferecendo a sua vida para os seus filhos Oblatos.
O caminho seguro: o “iter para tutum” que tinha pedido em oração a Virgem Maria, terminava após uma vida de boas ações que teria desembocado depois no reconhecimento das virtudes heróicas.  Seguindo aquele iter,  que leva por etapas à Canonização, o silêncio que o tinha envolvido pareceu diminuir, para proclamar em alta voz que a santidade é dom de Deus à Igreja, sobretudo por  obra dos seus membros mais humildes.
A Congregação que desenvolve em seu nome o apostolado a favor dos jovens e dos pobres, trabalha hoje na Itália, Polônia, Romênia, Estados Unidos, México, Peru, Bolívia,  Brasil, Filipinas, Índia e Nigéria e tem  ainda muitas coisas para dizer e fazer, em nome do Santo Fundador, José Marello.
Hoje como naquele tempo os seus oblatos, sacerdotes e irmãos, disponíveis para a glória de Deus e o bem das almas, sentem-se amparados pela proteção de seu Pai no desafio essencial que este terceiro milênio coloca aos apóstolos: “Quanto ao resto São José providenciou  até agora, providenciará certamente também para o futuro”. Desde a visita de João Paulo II em Asti na ocasião da Beatificação, até à sua proclamação a Santo, o sacerdote fundador, o pastor  preparado e fiel vem de encontro ao homem de nosso tempo, para dizer-lhe que apesar das pseudo culturas, dos sofrimentos físicos e morais, das  incompreensões entre os pequenos e grandes, dos importantes e talvez terríveis acontecimentos da história, a humanidade aguarda e espera e anseia, mesmo que não goste de  falar disso, em ver a Deus. Assim como Ele é.

Artigo extraído de "11 Consulente Re" - Informativo mensal de consulta a serviço da Igreja Italiana, Milão, Nov.2001 , n. 9.
Tradução: Pe. Mário Guinzoni, osj.

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