SÃO JOSÉ MARELLO, DÓCIL AO ESPÍRITO SANTO

O ESPIRITO SANTO NOS ILUMINA NA VIRTUDE


Pe. Severino Dalmaso, osj

            DÓCIL AO ESPIRITO SANTO

A espiritualidade cristã do ‘800 foi acusada de reduzir-se à ascese, sem descobrir a grande riqueza dos dons do Espírito Santo, que introduzem na vida mística. E uma acusação infundada, porque o Espírito Santo trabalha sempre na sua Igreja, e precisamente no século XIX, conduziu-a ao grande despertar do laicato católico, da liturgia, do movimento missionário, da ação social etc. Esses frutos, evidentes no fim do século, foram amadurecendo ao longo dos anos precedentes, graças ao Espírito Santo, que está sempre em ação para quem sabe auscultar.
Dizia São Marello: “Nós não podemos cumprir um único ato de virtude que não seja por obra do Espírito Santo. Quem é que nos coloca no coração aquele gosto que experimentamos pela oração, aquele estímulo que sentimos a adquirir virtudes, aquele desejo de agradar a Deus mortificando os nossos sentidos? É simplesmente aquele que nós chamamos de Espírito bom, que continuamente trabalha e opera em nossos ânimos.” (Scritti p.344).
Na vida do Marello, observa o famoso teólogo Garrigou-Lagrange, “a ascética não está fechada, mas aberta a uma forma de vida espiritual em que domina a docilidade ao Espírito Santo”. E o mesmo teólogo recorda aquilo que diz o santo Grignon Maria de Montfort: que quando o Espírito Santo encontra Maria (e José) em uma alma, voa até ali e faz nela a sua morada. Assim era a alma do Marello, pois que ele era cheio de devoção àVirgem e ao seu esposo José.
Um outro grande conhecedor da vida de São José Marello, padre Ângelo Rainero, interrogado no processo apostólico de Àcqüi, “qual a convicção que pôde formar-se sobre a heroicidade das virtudes do Servo de Deus, a partir da leitura e do estudo de suas carta”, respondeu entre outras coisas:
“Vê-se verdadeiramente que ele era animado e guiado e movido em tudo pelo Espírito do Senhor, ou seja, pelos dons do Espírito Santo, cuja constante atividade é exatamente o que caracteriza a heroicidade das virtudes; heroicidade que resulta ainda positivamente da constância com que as virtudes se manifestam, constância que nele não sofre exceções, e que por isso não se dobra, senão admitindo que ele as possui em grau sumo, e portanto heróico. A heroicidade das virtudes é exatamente o primeiro requisito que se exige para proceder à santificação de um servo do Senhor; e esta foi comprovada no Marello pela sua docilidade à guia do Espírito Santo.

O ESPIRITO SANTO NA SUA DIREÇÃO ESPIRITUAL

Uma das características que assinalaram a vida do Marello foi o seu apostolado no confessionário e na direção das almas. Especialmente nesses ministérios ele se mostra iluminado pela graça do Espírito Santo ao saber aconselhar as almas e guiá-las à virtude. Dizia: “Que o Espírito Santo nos ilumina para conhecermos a beleza da virtude e a feiura do vicio; Ele que é espírito de fortaleza, dê-nos força para fugirmos do pecado e praticarmos a virtude; Ele que é espírito de consolo, console-nos nas nossas amarguras e tribulações” (Scritti p. 324).
Com uma direção espiritual assim iluminada pelo Espírito Santo, ele soube conduzir muitas almas à perfeição, e muitas delas encaminhou para a vida religiosa. Uma sua filha espiritual, Bice Graglia, recordava-o assim: “Ele era dotado de uma grande penetração, sagacidade e discernimento de espíritos na direção das almas, que sabia guiar para Deus com grande suavidade e doçura, com firmeza e perseverança, com a bússola da graça de Deus, no mar desconhecido da vida espiritual. A sua direção era forte e suave: não era seu método empurrar as almas; deixava esse trabalho ao Espírito Santo; ele esforçava-se para caminhar sempre após Jesus, com o olhar fixo n’Ele, e com a terna solicitude de uma mãe atenta a dirigir os primeiros passos de seu filhinho, sustentando-o sempre que esse pende de uma parte ou de outra; e tal era a influência de suas palavras, sempre prontas para iluminar, corrigir, incitar, moderar, segundo as necessidades da alma, que essa sentia-se como que inundada por uma paz indefinida, por uma alegria toda celeste”. Essa era a alegria que o Espírito Santo sabe infundir em quem se deixa guiar por ele, através de um diretor espiritual santo como era o Marello.

O ESPIRITO SANTO NA FUNDAÇÃO DA CONGREGAÇÃO

A vida sacerdotal de José Marello pode ser vista como um contínuo tempo de busca, através de suas experiências interiores, “que exprimem uma inconfundível fisionomia à vida, ao ministério, à espiritualidade, às opções carismáticas desse homem. O fio vermelho que atravessa e sustenta toda a busca (encontra-se) na vontade de entrever o desígnio do Espírito do Senhor entre os eventos ordinários e extraordinários da sua existência” (Gerardo Cardaropoli, OFM).
A presença do Espírito Santo na sua vida aparece sobretudo na sua vocação de fundador de uma congregação religiosa em nome de São José. Diante dessa empresa, ele, como São João Batista, quereria desaparecer: “e preciso que Ele cresça e eu desapareça” (cfr. Jo 3,30).
Escrevendo a um amigo, a 4 de outubro de 1877, o Pe. Marello apresentava-lhe o primeiro esboço da congregação que pretendia fundar,
dizendo-lhe: “examine-o em sigilo diante do Senhor: rezando para que se torne o primeiro impulso de uma boa obra e a causa, mesmo somente ocasional, de uma fundação a ser iniciada um belo dia pela pessoa que a Providência tiver designado para esse fim” (carta 95).
E quem era essa pessoa, senão ele, que tanto queria permanecer escondido? No seu pensamento, ele considerava-se somente a “causa ocasional “, não o autor da congregação: este devia ser o Espírito Santo. Ele era bem convicto disso e dizia: “Não se deve mover a língua, o coração ou o pé, sem antes consultar o Espírito Santo” (Scritti p. 173).

A empresa da congregação era bem mais do que um gesto externo, pois nela ele extravasou todo o seu pensamento espiritual e a seguiu como uma mãe costuma acompanhar o crescimento de seu filho. A presença do Espírito Santo precisou ser nele contínua e eficaz para que se pudesse realizar uma obra tão importante. Mas ele considerava-se um menino que tudo espera da mãe: “Como a criança ainda incapaz de comer abre a boca para receber da mãe o alimento, precisamos abrir-nos ao Espírito Santo a fim de que nos plenifique com seus dons: abre bem a boca e eu te saciarei -S1 80,9” (Scritti p. 189).


Artigo publicado em JOSEPH, abril/2001
Tradução pe. Alberto Antonio Santiago

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