VIDA SACERDOTAL TODA MARIANA
Pe. Severino Dalmaso, osj
SACERDOTE DE MARIA
Em janeiro de 1868, poucos meses antes da sua ordenação sacerdotal, José Marello escrevia este propósito: “Prostrados aos vossos pés, ó Virgem Santa, proclamando-vos verdadeira Mãe de Deus, nós vos elegemos, de agora e para sempre, como nossa Mãe Celeste”. Era um verdadeiro ato de entrega a Maria, assinado por ele e pelo amigo Estêvão Delaude, que juntos se propunham tornar-se sacerdotes de Maria e “multiplicar os esforços (deles) para propagar o seu culto”.
Depois da primeira missa celebrada em São Martinho Alfieri a 20 de setembro de 1868, Pe. José dirigiu-se ao pequeno santuário de Nossa Senhora das Mercês, que era propriedade de tia Catarina, e ali celebrou uma de suas primeiras missas, por ocasião da festa litúrgica que caía no dia 24 daquele mês. Iniciava, assim, a sua vida sacerdotal sob o olhar de Maria, reconhecendo que devia a ela a graça do sacerdócio com que se via revestido.
Certamente não se esqueceu de seu ato de entrega a Maria, pois no ano seguinte, a 12 de janeiro de 1869, escrevendo ao Pe. Delaude, exprimia-se assim: “O Senhor, vós que vedes e ledes no profundo do coração, abençoai o nosso propósito e ajudai-nos com a vossa graça a mantê-lo até o fim dos nossos dias. E Maria? Sem você, mãe amantíssima, como teremos coragem de aventurar-nos, crianças ainda, por caminhos inexplorados?... Jesus, Maria, José, Anjos e Santos nossos protetores, nós queremos ir convosco; qual a estrada mais segura?”.
Uma outra prova da devoção a Maria por parte do jovem sacerdote Marello, deu-se no mês de agosto de 1869, quando, acompanhando o seu bispo às festas de Nossa Senhora Rainha de Mondovì, pode sentir tanto fervor, como escrevia ao amigo Pe. Rossetti: “Eu precisaria falar com você um dia inteiro ou ao menos de escrever-lhe um fascículo para dizer-lhe tudo aquilo que sinto no coração ao recordar-me daqueles dias felizes, passados em Mondovì. Deus seja mil vezes bendito pela graça que infundiu em nossas almas naquela grande solenidade de sua Mãe Santíssima”.
PEREGRINO ATÉ MARIA
Os santuários de Maria foram para o Pe. Marello uma das metas preferidas de suas peregrinações, seja em Roma, durante o Concílio Vaticano I, como retomando para Asti. A 14 de agosto de 1870, ele participava com o seu bispo da consagração do santuário de Nossa Senhora das Graças em Villanova d’Asti, onde estava presente também São João Bosco, que proferiu o discurso oficial.
No ano seguinte, 1871, sempre no mês de agosto, teve oportunidade de fazer uma peregrinação, à la plus vite (às pressas, como ele disse), aos célebres santuários de Oropa e de Varallo, situados nos contrafortes dos Alpes piemonteses. De volta a Asti para a festa de Nossa Senhora Assunta, titular da catedral, ele se esforçava para participar das funções: “falta-me tempo para prosseguir, escrevia, roubam-mo as primeiras Vésperas da Assunção de Nossa Senhora”.
Os exemplos de sua devoção a Maria multiplicam-se no período de sua vida sacerdotal. Uma dessas ocasiões foi a sua presença, sempre ao lado do bispo, no santuário de Nossa Senhora da Penha em Molare, diocese de Àcqüi, em agosto de 1873.
A sua devoção foi percebida pelas pessoas com tão grande admiração, que ainda se lembravam quando ele retornou, muitos anos depois, como bispo. Um sacerdote o recordava assim: “Admirei a sua bondade de ânimo, a prudência na palavra e nos modos e a exemplar piedade, e fiquei firmemente convicto de que ele havia de fazer um grande bem no seu ministério sacerdotal”.
APOSTOLO DE MARIA
São Francisco de Assis sentiu uma inspiração vinda de Deus: “Vai e restaura a minha Igreja”. O sacerdote José Marello fez algo de semelhante com a igrejinha de N. Sra. das Mercês no Vallone, que estava em perigo de cair em mãos nada seguras, depois da falência de Carlos Marello, marido de tia Catarina. Ele já tinha vendido a grande cocheira e a maior parte dos terrenos adjacentes, que de primeiro, constituíam junto com a igrejinha uma única propriedade eclesiástica, dependente dos cônegos do domo de Asti.
Pe. Marello comprou, junto com a igrejinha, duas partes de terrenos cultivados com vinhedos, e pôs-se a reformar o edifício, acrescentando algumas salas e um salãozinho para reuniões, destinando tudo aos Irmãos de São José, que ele tinha fundado três anos antes em Asti. “Aquela casa e aquela igreja eram meta dos assim chamados passeios longos, e lá íamos por turnos, dez de cada vez, para passar as férias. Durante a permanência dos josefinos naquela localidade, realizávamos funções religiosas naquela igrejinha, especialmente no dia 24 de setembro, com grande participação e proveito espiritual dos fiéis dos arrabaldes” (Pe. Antônio Mazzetti). “E ali passaram as primeiras férias quase todos os nossos sacerdotes (Oblatos) de agora”, lê-se no número 10 de Joseph de 1925.
Entre todos, recordamos o irmão João Médico, primeiro discípulo do Marello, que em maio de 1883 dirigia as funções do mês de Maria e falava
ao povo com tanto fervor, que muita gente vinha dos povoados vizinhos só para ouvi-lo, ficando edificados. Bem naquele ano, ele estava pedindo a Maria para que lhe fizesse conhecer se era da vontade de Deus que ele se dedicasse aos estudos para tomar-se sacerdote “e Nossa Senhora, um dia benignamente lhe aparecer com um chapéu de padre na mão, colocou-o em sua cabeça e disse-lhe: “pode retomar os seus estudos” (Pe. Luís Mori).
O fundador havia transmitido aos primeiros irmãos da Congregação o seu grande amor à Virgem que se exprimia sobretudo venerando-a sob os títulos de ‘Imaculada’ e ‘das Dores’, a ele tão caros. Falava dela amiúde com filial afeto e sobretudo precedia a todos no bom exemplo. “Era devotíssimo do S. Rosário de Maria e o recitava freqüentemente, muitas vezes por inteiro, ajoelhado no chão duro” (Pe. Angelo Rainero).
É também de 1883 o episódio das três irmãs Graglia, filhas do procurador advogado Felipe, as quais estavam à procura de um diretor espiritual que as ajudasse a praticar a vida cristã que haviam iniciado num colégio dirigido por irmãs em Turim. No dia da Assunção de N. Senhora, colocaram-se ao lado da procissão que saía do domo para as ruas da cidade e, por não conhecerem nenhum dos sacerdotes presentes, observavam aquele que era mais devoto para poderem orientar-se em sua escolha. Perto da imagem de Nossa Senhora viram o cônego Marello e, na sucessiva festa da Natividade, a 8 de setembro, apresentaram-se a ele, para pedir-lhe que fosse seu pai espiritual.
A sua direção espiritual guiou a mais jovem, Greca, a ingressar, em 1888, para as Monjas da Visitação, em Pinerolo, onde perseverou como uma santa religiosa. As outras duas irmãs, Bice e Jole, foram encaminhadas passo a passo à prática da verdadeira devoção a Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignon de Montfort: “a bela e preciosa devoção da santa escravidão a Jesus por Maria”, que elas abraçaram na Epifania de 1889. Naquela ocasião, ele recomendava a Bice: “Preze muito esta preciosa devoção, que por especial favor de Maria você pôde conhecer; procure praticá-la com muita fidelidade ao modo ensinado pelo beato de Montfort, e certamente colherá disso muito fruto”.
CARACTERÍSTICAS DO SEU AMOR A MARIA
A idéia básica de toda a devoção do Marello a Maria residia na convicção de que “a Mãe de Deus é também nossa Mãe”. Deste fato provinha nele uma entrega toda confiante, como quando dizia: “Dilatemos o nosso coração e lancemo-nos com tenra confiança nos braços de Maria. Ela não nos abandonará”. E ainda: “Em todas as vossas necessidades, lançai-vos com confiança entre os braços de Maria, vossa terníssima Mãe, e por maiores que sejam os perigos e as tentações, havereis de sair sempre vitoriosos”.
O douto teólogo Garrigou-Lagrange,OP que foi também professor de teologia do atual papa João Paulo II, escreveu a respeito de Dom Marello: “Este fundador dos Oblatos de São José foi um filho predileto da Virgem Santíssima. Na sua vida, vemos verificar-se aquilo que diz São Luís Grignon de Monfort sobre ta conduta de Maria para com os predestinados. Ela ama-os, guia-os, protege-os e defende e intercede eficazmente em favor deles. Ela realiza grandes coisas por meio deles, conservando-os embora na convicção de serem servos inúteis”.
Este tipo de apego com Maria era para o Fundador dos Oblatos a premissa necessária para compreender e praticar também a devoção a São José, o homem da grande vida interior junto de Jesus e Maria. “Ele era devotíssimo de São José, ao qual dedicou a sua Congregação dos Oblatos, mas era também um enamorado da Virgem Santa. [...] Maria o tinha verdadeiramente conduzido com mão maternal até aos cumes da santidade. Não admira, portanto, ouvi-lo repetir: ‘Devemos olhar sempre para Maria e ficar sempre ao lado d’Ela’. Eram as ternuras de um filho para com a Mãe. Mas eram também palavras empenhativas, que incluíam um propósito de imitação: ‘Façamo-nos pequenos discípulos de Maria - dizia ele - e peçamo-lhe a graça de a podermos imitar’; imitar não nas virtudes grandes e sublimes, mas nas virtudes humildes e escondidas, que são próprias de Maria” (palavras pronunciadas em Asti por João Paulo II a 26 de setembro de 1993).
Artigo publicado em JOSEPH, nº 06, jul/2001, p.10-12
Tradução: Pe. Alberto Antonio Santiago, osj
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