Artigo da Semana
O ESPÍRITO DO NOSSO FUNDADOR:
ESPÍRITO DE DISCRIÇÃO E DE SIMPLICIDADE
Pe. João Batista Cortona, osj
Nesta conferência, Pe. Cortona nos impulsiona a procurar a espiritualidade genuína do Fundador, o Bem-aventurado José Marello, e dela nos dá uma síntese muito apreciável:
1. “Sejai extraordinários nas coisas ordinárias”, com “uma vida comum não porém vivida no modo comum”.
2. “O santo abandono nas mãos de Deus”, que não nos deixa jamais faltar nada; mas “nada pedir e nada rejeitar”.
3. “O santo recolhimento tão necessário para o viver religioso e devoto, para ser homem de oração, para dedicar-se seriamente aos estudos”...
E conclui: “Se entre nós reinar o espírito do pai, não se escutarão mais vozes de lamento, vozes de desânimo e de tentações, mas vozes de exultação e de salvação”.
VII Conferência do Pe. Cortona, Primeiro Superior Geral O.S.J.
Asti, novembro de 1921
JMJ
“Accipe librum et devora illum”.
São João, continuando a descrever a visão da qual nos ocupamos na conferência passada, escreve que o Anjo que tinha na mão o livro aberto disse-lhe: Accipe et devora illum, et faciet amaricari ventrem tuum in ore autem tuo erit dulce tanquan mel (1).
Este livro segundo a interpretação dos santos é o apocalipse, livro, como todos sabem, profético.
Ora, ao ler este livro, São João provou grandes consolações ao conhecer tantas coisas novas, arcanas, maravilhosas, e foi então in ore suo dulce tanquam mel, mas conhecendo também todas as perseguições às quais estaria sujeita a Igreja, a defecção de muitos cristãos e, especialmente a multidão de réprobos que teriam sido por Jesus amaldiçoados e condenados no grande dia do juízo final, sentiu profundamente a amargura no coração como lhe disse o anjo: “Et faciet amaricari ventrem tuum”.
Irmãos, a vós também apresenta-se o nosso bom anjo, o nosso Pai, e com aquela afabilidade que lhe é própria nos apresenta um pequeno livro, tão discreto ele é! Mas que contém doutrina sublimíssima e nos diz: Accipe librum et devora illum.
Este livro nós o aceitamos propondo-nos entrar na Congregação; durante o Noviciado devoramo-lo, por assim dizer, estudando a sua explicação por parte do mestre. Pedindo para ser admitidos à profissão religiosa, propusemo-nos de observá-lo. Na emissão dos votos diante da hóstia sagrada, na presença de toda a corte celeste, empenhamo-nos solenemente a querer viver segundo as nossas Constituições. Agora cabe a nós de não faltar com a palavra dada e manter a nossa promessa.
Na prática, porém, não temos que vencer poucas dificuldades: deveremos vencer o amor próprio tantas vezes e a nossa sensualidade e, isto fará maricari ventrem nostrum. Na presente conferência, porém, veremos quanto seja razoável que nós vençamos estas pequenas dificuldades para gozar das imensas vantagens espirituais e também temporais que nos trará a observância perfeita das nossas Constituições. Nestes últimos tempos, digo-o para quem não o soubesse, os Fundadores de Congregações religiosas não podem fazer outra coisa do que estabelecer o fim das suas instituições e o espírito com o qual devem ser animadas, porque todo o resto está já estabelecido agora por certas normas sapientíssimas contidas no Direito Canônico. Antes, as próprias ordens religiosas que já contam com séculos de vida, devem modificar as suas regras que fossem contrárias ao novo código eclesiástico.
O fim deve ser bem determinado e compreendido nas próprias Constituições, mas o espírito do qual devem ser informadas se transmite geralmente por hábito e com o andar do tempo é depois estabelecido em um livro a parte que costuma-se chamar de diretório ou regulamento interno.
Ora, é especialmente isto que nos vem proposto pelo nosso venerado Fundador e deve ser objeto da nossa atenção.
Quem bem considera o complexo das prescrições feitas pelo pai vê logo que ele era amante da simplicidade, contentou-se de nos prescrever uma vida comum, não, porém, vivida no modo comum. Sejais extraordinários nas coisas ordinárias, era a máxima que nos repetia com mais freqüência. Logo não nos comandou nenhuma disciplina que até os Padres de São Felipe fazem, nenhum jejum salvo aqueles da Igreja. Os três jejuns prescritos pelas nossas Constituições, ele resolveu no-los conceder por causa das nossas muitas insistências e, nem mesmo prescreveu o capítulo das culpas, que está em uso em todas as ordens e congregações religiosas. O capítulo das culpas, para quem não o soubesse, consiste em confessar as infrações às regras diante do Superior na presença de toda a comunidade. Contentou-se que nos acusássemos diante de Deus e no segredo da confissão.
Nos próprios exercícios de piedade não prescreveu longas orações como se fazem em tantas ordens religiosas, mas contentou-se com o exercício do bom cristão, para a manhã e para a tarde. Já que os nossos primeiros confrades, às orações habituais do catecismo acrescentavam, especialmente à tarde, muitas outras orações, então ele acrescentou por último uma Salve Rainha para acontentá-los e depois deviam ir repousar. As outras orações foram acrescentadas por nós aos poucos, mas agora, imprimindo o novo livro das orações, serão eliminadas em grande parte retornando à antiga simplicidade. O ofício de Nossa Senhora é recitado também pelos bons fiéis, especialmente pelos clérigos, a meditação de meia - hora, os exames de consciência particulares e gerais, a leitura espiritual, a confissão semanal são prescritos pelo Direito Canônico também para os clérigos e os sacerdotes, e eu que confesso diversos sacerdotes e clérigos, vejo que se acusam quando deixam estas práticas, o que faz ver que têm consciência que devem fazê-las.
O mesmo pode-se dizer da Santa Missa quotidiana: qual é aquele bom cristão que deixa de escutar a missa toda dia que pode? Duas práticas de piedade ele prescreveu e recomendou de modo especial e são: fazer o sinal da cruz cada vez que entra no laboratório, estudo, refeitório e esta prática era muito observada tanto que o nosso Dom João tinha sobre a veste um sinal onde se assimilava, porque sabeis que na água santa há o sal que roe a cor. E porque, dirá alguém, fazer tantas vezes o sinal da cruz? Porque é o sinal do cristão, o primeiro ato de religião que foi usado entre os primeiros cristãos e vós sabeis que fazendo o sinal da cruz renova-se a fé nos dois mistérios mais augustos de nossa santa religião, o mistério da Unidade e Trindade de Deus e aquele da nossa Redenção, depois manda-se embora as tentações e obtém-se de Deus muitas graças e, por isto, auxílio potente para manter-se na presença de Deus.
Outra prática é que os irmãos, encontrando-se, saúdam-se com a jaculatória: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. Era também a saudação que se davam os primeiros cristãos, que contém um belo ato de amor para com Jesus e desejo que seja por todos conhecido, porque não se louva uma pessoa se não a conhece, e é ainda um ato de reparação pelas contínuas blasfêmias que se pronunciam no mundo. E, porque não dizê-lo? Serve também para vencer o respeito humano. Parece impossível, mas é assim: esta fera, como o chama o Papa, encontra o modo de infiltrar-se também nas casas religiosas.
Ao prescrever estas práticas o nosso Fundador preveniu os tempos. Sabe-se que agora em Roma se está estudando todas as devoções que eram em uso junto aos primeiros cristãos para introduzi-las de novo no meio da presente geração.
A todas estas orações une a única mortificação: o silêncio que prescreveu rigoroso desde o toque do sino das orações da noite até o sinal do café da manhã, e depois em todos os outros tempos exceto o tempo de recreação.
Também este silêncio é bem discreto, porque enquanto congregações têm silêncio durante todo a manhã até depois do almoço, e a tarde desde o sinal conclusivo da recreação até depois do jantar, nós temos ao menos 45 minutos de recreação pela manhã e e meia hora à tarde.
Mas todas estas prescrições eram acompanhadas pelas máximas que devem regular, segundo a sua mente, a nossa vida. E a primeira máxima que ele tanto nos recomendou e praticou com tanta fidelidade é um santo abandono nas mãos de Deus, deixando-nos guiar em tudo pela sua paterna providência. Fazei dia após dia aquilo que determinará a Divina Providência: quantas vezes nos repetia a viva voz e por escrito esta máxima! Quantas vezes nos dizia: não pensai no dia de amanhã, sufficit diei malitia sua!
Uma outra sua máxima favorita era aquela de São Francisco de Sales: nada pedir e nada rejeitar; que não devemos importunar as famílias no pedir, mas a contentar-nos com aquilo que nos é oferecido espontaneamente. E mesmo assim, meus caros, não obstante não se tenha pedido nem um soldo a ninguém, a Divina Providência nos mandou milhões com os quais pode-se manter sempre tantos caríssimos e tantos pobres e pagar todos os débitos feitos na compra da casa e acrescer o patrimônio da Congregação.
Uma última máxima que também tanto nos inculcava era esta: “Sede cartuxos em casa e apóstolos fora de casa”. Com esta máxima que era de São Vicente de Paulo, entendia que entre nós deveria reinar o santo recolhimento tão necessário para o viver religioso e devoto, necessário para ser homens de oração, necessário para dedicar-nos seriamente aos estudos.
Eis, portanto, diletíssimos irmãos, o pequeno livro que nos apresenta o nosso bom Pai que tanto nos ama. Certo que para abandonar-nos nas mãos de Deus devemos vencer o nosso amor próprio, a nossa sensualidade. Para praticar com rigor o silêncio, para manter o santo escondimento, em suma, para a prática de todas as regras deveremos vencer dificuldades, logo faciet armaricari ventrem nostrum. Mas se vencerdes a vós mesmos e fordes constantes na observância religiosa e procurardes adquirir aquele espírito religioso que praticou o nosso Fundador e tanto nos recomendou, além do grande prêmio que tereis no céu, também sobre esta terra gozareis de grandes consolações: quam magna multitudo dulcedinis tuae quam abscondisti timentibus te; escutai, irmãos, abscondisti, escondeste aos tépidos, aos relaxados, para reservá-las aos fervorosos, aos observantes.
Se entre nós reinar o espírito do Pai, não se escutarão mais vozes de lamento, vozes de desânimo e de tentações, mas vox exultationis et salutis in tabernaculis justorum.
Portanto, peçamos ao Senhor que nos faça penetrar profundamente e praticar os ensinamentos do nosso santo Fundador. Digamos com as palavras do Espírito Santo: “Aperite mihi portas justitiae, ingressus in eas confitebor Domino”.
Laus Deo!
Artigo publicado em MARELLIANUM, nº 9, jan/mar 1994 pg.16 a19
Tradução: Pe. Dênis O . Paixão e Silva, osj
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