O CARISMA DA IMITAÇÃO DE SÃO JOSÉ
Pe. Marcello Corazzola
Disse o Santo Padre, no Brasil, em 1980: “Um sacerdote religioso inserido na pastoral ao lado de sacerdotes diocesanos, deveria mostrar claramente em suas atitudes que é religioso”.
Evidenciar sempre a nossa condição de OSJ, não é coisa fácil e comporta um empenho sério e constante. Os Oblatos não usamos um hábito diferente, como há anos fazem certas ordens religiosas. Nem trazemos um sinal exterior que nos identifique. Tampouco temos obras apostólicas “específicas”: hoje em dia, todos os religiosos (quem mais e quem menos) freqüentamos paróquias, temos escolas, missões, obras sociais, atenção à juventude, movimentos de várias denominações...
Evidentemente, não se poderá procurar por esse caminho a evidência de que somos Oblatos de São José. Será preciso recorrer a outros elementos.
A) Haverá algo que identifique claramente a nossa condição de OSJ?
O XI Capítulo Geral (1981) houve por bem responder a essa pergunta nas Constituições, com uma resposta exaustiva e claramente formulada: “O QUE CARACTERIZA O APOSTOLADO DOS OBLATOS DE SÃO JOSÉ É O ESPÍRITO COM QUE DESENVOLVEM O SEU MINISTÉRIO” (C 58).
Com essa resposta clara e resolutiva, estamos orientados na direção certa. O Papa, mui amiúde nos tem repetido: “Vocês religiosos valem na Igreja muito mais pelo que são, como pessoas consagradas, do que pelo que fazem”.
B) será preciso perguntar-se: “E qual seria esse espírito que deve caracterizar o apostolado que exercem os OSJ?”
Novamente, são as Constituições, no mesmo capítulo do apostolado, a dar-nos respostas exaustivas e completas (C 58; RG 29; 57).
OS SINAIS MAIS AUTÊNTICOS DO TRABALHO DOS OBLATOS DE SÃO JOSÉ são:
1) A imitação de São José, o santo
Da vida humilde e escondida...
Da plena confiança na divina Providência...
Da dedicação exclusiva aos interesses de Jesus.
2) A opção para servir a Igreja
Em lugares e atividade humildes,
Contentes de realizar os trabalhos mais simples e ordinários com amor extraordinário
Em caridade e humilde laboriosidade,
Excluindo toda propaganda e ambições pessoais,
Fiéis ao espírito das genuínas tradições oblatas de dependência da hierarquia em seu serviço apostólico e fidelidade religiosa à sua Congregação.
Como bem podemos notar, a Congregação deu uma resposta cabal às palavras do Santo Padre. E as questões que havíamos colocado, estão claramente resolvidas nas Constituições, que são um resumo do carisma e espírito herdado dos primeiros Confrades.
Os OSJ faremos a vontade da Igreja, do próprio Fundador e de Deus, se nos apresentarmos no presbitério, revestidos de nosso carisma e espírito. Será, então, de máxima utilidade o estudo e assimilação do espírito e carisma que dimana da IMITAÇÃO DE SÃO JOSÉ, que é como que o manancial do qual sai todo o nosso ser de Oblatos, o DNA (como escreveu Pe. Dalmaso, in Marellianum 19, pág. 8).
A IMITAÇÃO DE SÃO JOSÉ
A imitação de São José é a chave para compreender nossa identidade na Igreja, tanto no que diz respeito à vida interior (cartuxos),como pelo que concerne à vida de missão (apóstolos).
Foi vontade de Deus, manifestada ao bem-aventurado Fundador e garantida pela hierarquia que aprovou a Congregação e as Constituições, que existissem os OSJ dedicados a imitar São José em seu serviço a Jesus, tomando-o como modelo exemplar de serviço à Igreja.
O primeiro serviço que estamos chamados a prestar é o testemunho de nossa vida consagrada, fiel ao próprio carisma, alimentada pela oração e a penitência, em vida comum; tudo no estilo de São José (Cân. 673).
O Espírito Santo, por meio do bem-aventurado Fundador nos revelou que nós somos chamados na Igreja a reviver o mistério cristão, ou seja, a viver o evangelho em forma integral (vida e ensinamentos) de Jesus e a missão do cristão hoje, a partir da pessoa de São José, em companhia, tomando-o como mestre e guia de vida consagrada a Jesus (cfr. Regras 1892 1º Cap.).
Somos chamados a seguir Jesus Cristo, único caminho para o Pai, a olhar para ele e a servi-lo a partir da pessoa de São José, com o olhar de São José, com a mesma entrega com a qual São José o serviu. Somos chamados a venerar, honrar e amar nossa Mãe, Maria SS.ma, como o fez São José, seu esposo por vontade humana e por explícito mandato divino. Se como discípulos somos chamados a carregar a cruz, a negar-nos a nós mesmos, a ser mansos e humildes de coração, a servir aos irmãos... se se trata de ouvir a Palavra de Deus e colocá-la em prática... se se trata de fazer a vontade do Pai como o fez Jesus Cristo, etc... o Oblato de São José fá-lo-á sempre se colocando na pessoa de São José, assumindo as atitudes e virtudes desse santo que por 30 anos viveu em íntima familiaridade com Jesus na casa de Nazaré, com sua esposa Maria (cfr. Regras 1892 1º Cap.).
São José viveu o mistério cristão em primeira pessoa, foi testemunha “singular” como Maria SS.ma da novidade evangélica; nenhum outro, fora Maria SS.ma, colaborou como ele para a obra da Encarnação e da Redenção do gênero humano realizada por Jesus Cristo. Por uma vocação especial, única na história humana, foi chamado a ser esposo de Maria, da qual nasceria o Salvador e, ao mesmo tempo, o pai virginal de Jesus, o Filho de Deus, nascido de sua esposa. Essa missão, ele a realizou em uma vida familiar, praticando as virtudes de um lar humilde, levando uma vida de trabalho, austeridade e pobreza, passando despercebido aos homens, mas muito amado por Deus, abandonando-se à sua divina Providência, em sintonia perfeita com suas ordens...
O Bem-aventurado Fundador dedicava muito tempo à contemplação desse admirável mistério, e dessa contemplação nasceu, por ação do Espírito Santo, a idéia de suscitar na Igreja uma Família religiosa para continuar essa missão de São José, o estilo de São José, suas virtudes típicas.
Por isso, São José, por vontade divina manifestada na inspiração do Fundador e na vocação desse instituto, torna-se para os Oblatos de ontem e de hoje:
MODELO INSPIRADOR:
“Na prática da vida religiosa, os OSJ deverão inspirar-se continuamente em seu Padroeiro ” (RG 2; L 76).
GRANDE MODELO DE VIDA
“A Congregação de São José... escolheu-o como modelo de vida”, (Regra 1892).
“Formados na escola de São José, na prática das virtudes simples e comuns, mas verdadeiras e autênticas” (C 74; cfr. L 95 e RG 1).
PRIMEIRO MODELO DE VIDA RELIGIOSA
“(São José teve) sempre diante dos olhos o Exemplo divino que o Pai eterno, por sua misericórdia, quis enviar ao mundo para nos ensinar o caminho do céu” (RG 2; cfr. Regra 1892) (PC 2 a: seguimento).
PRIMEIRO MODELO EM CUIDAR DOS INTERESSES DE JESUS
Se a vida consagrada consiste em preocupar-se somente com os interesses do Senhor (cfr. 1Cor 7,32) o OSJ está chamado a fazê-lo como o fez São José “o primeiro que, na terra, cuidou dos interesses de Jesus” (cfr. L 76) (PC 5,d).
PRIMEIRO MODELO DE VIDA ÍNTIMA COM JESUS
Se a vida consagrada é chamada a viver em íntima comunhão com Jesus (cfr. PC 6), o OSJ está chamado a fazê-lo como o fez São José “que, depois da SS.ma Virgem, foi o primeiro a apertar nos braços o Redentor Jesus, e por isso é seu modelo no ministério que, como o dele, é de íntima relação com o Verbo Divino” (cfr. L 35).
PRIMEIRO MODELO DE TODA VIRTUDE RELIGIOSA
Se é próprio da vida religiosa a prática de virtudes como fé, humildade e obediência, fortaleza e castidade, participação no aniquilamento de Cristo, abandono de tudo por Cristo e seguimento do único necessário, dedicar-se com solicitude aos interesses de Cristo... (PC 5, c-d), o OSJ está chamado a fazê-lo como o fez São José (cfr. L 95).
PRIMEIRO MODELO DE ENTREGA APOSTÓLICA
Se a ação apostólica de nossos institutos deve proceder da íntima união com Cristo e toda nossa vida religiosa deve estar imbuída de espírito apostólico, e toda ação apostólica de espírito religioso (PC 8,b), os OSJ estão chamados a realizá-lo como o fez São José “que se preocupou de guardar, defender e educar Jesus”.
Por isso quis o nosso Fundador que o imitássemos especialmente “guardando, defendendo e educando os adolescentes...” (BM).
PRIMEIRO MODELO DE SERVIÇO
Uma afirmação que se repete constantemente nos documentos referidos: “servir” (cfr. L 207; 248; Conferências do Padre Cortona; Regras 1892) Jesus Cristo teve um ideal em sua vida: servir ao Pai no seu plano de salvação da humanidade.
São José em sua vida teve um ideal: servir Jesus Cristo, o filho do Eterno Pai e de sua esposa amada, que veio a este mundo para realizar a vontade salvífica do Pai.
O Oblato em sua vida tem um ideal: servir Jesus Cristo hoje, com a mesma dedicação e carinho que São José. Jesus Cristo hoje é a Igreja, são as almas.
Em suma:
“Seguir mais de perto o Divino Mestre, na casa de São José” (L 95).
“Fazer-se verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, imitando São José, grande modelo de vida pobre e escondida” (L 95).
“O serviço de Deus, na imitação de São José” (L 207).
“Procurar os interesses de Jesus, como São José” (L 76).
“Servir a Jesus em tarefas modestas e inferiores, à semelhança de São José” (L 248).
Nós Oblatos de São José NÃO temos São José como o ideal de nossa vida; Jesus Cristo é o Único Consagrado no qual todos nos tornamos consagrados de forma excelente.
Não é possível que o Espírito Santo tenha sugerido tamanho erro ao Bem-aventurado Fundador! A carta de fundação diz claramente no primeiro parágrafo: “Entramos na congregação para seguir mais de perto o Divino Mestre e fazer-nos autênticos discípulos de Jesus Cristo; fazemos tudo isso na casa de São José, imitando esse grande modelo de vida pobre e obscura”; a vida pobre e escondida que se levava em Nazaré, na companhia de José e de Maria. Portanto, também a observância dos votos de castidade, pobreza e obediência, revivência d vida de Jesus Cristo, Maria e São José (C 6), o Oblato a realiza a partir da pessoa de São José: assim o dizem as novas Constituições (art. 6, 29, 35).
Este seguir mais de perto o Divino Mestre, sob a guia de São José, chegado até nós através do Bem-aventurado Fundador, engendra um conjunto de virtudes e atitudes próprias da Congregação que por sua vez geram um estilo de vida próprio, seu espírito de família.
VIRTUDES E ATITUDES NA VIDA
Muitas passagens das Constituições mencionam as virtudes próprias, procedentes do carisma de imitação de São José. São elas:
- União com Deus,
- Vida interior,
- Espírito de oração,
- Humildade,
- Vida silenciosa e escondida,
- Aplicação e amor ao trabalho,
- Entrega aos interesses de Jesus de forma exclusiva e total,
- Espírito de serviço,
- Plena confiança e abandono à divina Providência,
- Contínua oblação de si mesmos para tender à perfeição,
- Obediência imediata e generosa,
- Submissão à hierarquia,
- Espírito de fé,
- Amor à vida habitual,
- Simplicidade de vida,
- Disponibilidade: sempre atentos e prontos à voz da Providência, da Obediência (superiores e hierarquia), ao serviço, ao trabalho... satisfeitos e sem titubeios (Regra 1892).
Estilo de vida: Nosso modo de viver. Em nossas Constituições vem mencionado algumas vezes (art. 39, 57,8), porém, é um estilo de vida que subjaz a todo o projeto de vida oblata.
Foi sintetizado pelo Fundador na conhecida expressão: “sede cartuxos em casa e apóstolos fora de casa”.
A IMITAÇÃO DE SÃO JOSÉ
Reconhecido pelos Papas
Toda essa visão josefina do evangelho, intuída pelo Bem-aventurado Fundador, amadurecida e posta em evidência na Carta fundacional (1877), hoje patrimônio da Congregação, teve sua... “Consagração Oficial”, quando o Papa Paulo VI disse:
“São José é o modelo dos humildes que o cristianismo eleva a grandes destinos. É a
prova de que, para sermos bons e autênticos seguidores de Cristo, não precisamos fazer coisas extraordinárias, mas apenas praticar virtudes comuns, humanas, simples, porém verdadeiras e autênticas” (19 de março de 1969).
O Papa João Paulo II retomou essas palavras textualmente e as reproduziu na Rdemptoris Custos, nº 24. Contudo, há algo mais, que passou despercebido a muitos oblatos. O decreto de heroicidade das virtudes abre-se exatamente com essas mesmas palavras de Paulo VI, e logo continua dizendo: “Ter captado isso, tê-lo feito vida própria e logo tê-lo proposto à Congregação como ideal, esta foi a intuição do Servo de Deus José Marello”.
Tivemos este reconhecimento das virtudes do Bem-aventurado Fundador justamente no ano do centenário da Congregação. Era o Espírito Santo, era São José, era o Beato Fundador que nos recordavam o manancial puro de água viva para a Congregação em seu centésimo ano de vida. Captamos esse sinal divino?
O Espírito Santo serviu-se do coração de nosso bom Pai, o Beato José Marello, para suscitar na Igreja nossa Família religiosa, a fim de continuasse a prestar a Jesus Cristo, hoje vivente na sua Igreja, serviços humildes e ordinários como os de São José e o fizessem com o mesmo carinho como o fazia São José na casa de Nazaré (C 74,75).
“São José vive em seus Oblatos ” disse Pe. Cortona em uma de suas conferências.
Ó sublime grandeza desta especial vocação na Igreja! Afirmou o Pe. Bellati: Os Oblatos de São José contribuem para a edificação da Igreja, para a plenitude da santidade da Igreja por meio de seu “serviço a Deus na imitação de São José”. É importante afirmar que a vida da Igreja não seria completa sem a vida dos Oblatos de São José em sua condição de consagrados que seguem a Cristo mais de perto na imitação de São José e se entregam total e exclusivamente a Ele como o fez o seu grande Modelo de vida” (cfr. El Oblato 1987, nº2).
A IMITAÇÃO DE SÃO JOSÉ NA ORAÇÃO DIÁRIA
Esse grande ideal da imitação de São José que estamos chamados a viver diariamente o mais perfeitamente possível, faz-se também ORAÇÃO pessoal e comunitária.
No início do dia: “São José, guia e mestre de nossa vida espiritual, sublime modelo de íntima relação com Deus, velai pela vida interior de nossas comunidades, chamadas a imitar o amor e a unidade da sagrada Família...”.
Ao meio dia: “Senhor, conservai nossa Congregação fiel ao seu espírito de humildade, laboriosidade e dedicação aos interesses de Jesus, na imitação de São José”.
“Senhor, conservai-nos no amor e na paz, a exemplo da família de Nazaré”.
“Concedei-nos, Deus todo-poderoso, a mesma fidelidade e pureza de coração que levou São José a servir o vosso Filho único”.
“Deus nosso Pai, concedei-nos que realizando, a exemplo de São José, o vivo testemunho do vosso amor, gozemos sempre do dom da verdadeira paz”.
NAS DORES E ALEGRIAS
2ª) “São José, sede o modelo em nosso ministério que, como o vosso, é de relacionamento íntimo com o Verbo Divino...”.
4ª) “Vós, que no grande amor por Jesus e Maria encontrastes a força para superar todos os obstáculos...”.
7ª) “Que ocupemos na Igreja de Deus o lugar do trabalho humilde e desinteressado, do sacrifício entremeado de oração e do serviço contínuo pelos interesses de Jesus”.
Na fórmula da profissão: “Comprometo-me a viver nesta Congregação, humilde e silenciosamente operoso, na imitação de São José, a quem invoco como Protetor e Pai”.
Em cada momento de oração: “São José, nosso dulcíssimo protetor, rogai por nós”.
CONCLUSÃO
O documento sobre a Formação dos Religiosos (PI, 1990) diz:
“Os sacerdotes religiosos... bebam, para sua vida espiritual, nas fontes do Instituto do qual são membros e acolham em si mesmos o dom que representa o seu instituto para a Igreja; dêem testemunho de uma experiência espiritual pessoal inspirada no testemunho e nos ensinamentos do Fundador; vivam conforme a regra de vida que se comprometeram observar; vivam em comunidade segundo o direito próprio; estejam disponíveis e movíveis para o serviço da Igreja universal quando os superiores os chamarem a isso” (PI nº 100).
Parece-me que se vivermos como verdadeiros OSJ cumpriremos essas recomendações da Igreja. Sentir-nos-emos realizados na pequena família da Congregação, mesmo que não seja a numerosa família de Jacó, mas sim a pequena família de São José.
Abreviaturas: PI – Potissimum institutionis; C – Constituições dos OSJ; L – Cartas do Fundador; RG – Regulamento Geral dos OSJ; PC – Perfectae Caritatis; BM – Breves Memórias.
TRADUÇÃO Pe. Alberto – Marellianum Vol 30
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