A MAGNÍFICA FIGURA DO BISPO DOM JOSÉ MARELLO
Ano Marelliano - Artigo da Semana
Cônego Giovanni Rapetti
Giovanni Rapetti, Cônego de Acqui e professor no Seminário Diocesano, havia conhecido pessoalmente o Bispo José Marello durante os anos do seu Seminário Menor.
A sua recordação, publicada em “Voca Operarios”, uma revista diocesana de responsabilidade da Pastoral Vocacional e do Seminário, começa com as suas lembranças pessoais; mas depois descreve a figura poliédrica do Sacerdote e do Bispo Marello, tendo-o conhecido bem mais profundamente na qualidade de Membro dos Processos Diocesanos e do próprio Processo Apostólico, como ele mesmo declara.
Sob este ponto de vista, é impressionante a capacidade de síntese do Con. Rapetti que, de episódios particulares, referidos nos Processos, chega a conclusões muito interessantes. Além disso, a sua recordação tem a vantagem de descrever pormenorizadamente o período de Acqui, relatando dados e anedotas dos anos em que o Marello viveu longe de Asti, na plena maturidade da sua vida espiritual e episcopal.
O caríssimo Reitor do Seminário, com o intuito de fazer reviver para “VOCA OPERARIOS” uma das figuras mais brilhantes dos Sacerdotes que floresceram no Seminário de Acqui, pediu-me para descrever em poucas linhas a figura do santo Bispo Dom José Marello. Respondi dizendo que o boletim, cheio de juventude, não convinha à pena cansada de um velho, e que me preocupava ainda mais o espaço tão limitado para descrever uma vida tão rica, maravilhosa e exemplar como aquela do Marello.
Para quem o conheceu bem, e não somente através dos livros – e para acontentar o Reitor – seriam necessários o gênio e a pena de um Alighieri, embora depois os indispensáveis comentários comessem todo o espaço.
Eu era um moleque de dez anos quando me encontrei em Acqui juntamente com meu pai, na rua em frente à Estação ferroviária, exatamente no dia e na hora em que o novo Bispo fazia o seu ingresso na cidade, e lembro-me que a multidão era tanta e empurrava de todos os lados e se agitava festejando e aclamando de tal modo que eu, com a minha estatura minúscula, teria ficado pisoteado no fundo obscuro daquela floresta humana, se meu pai não me tivesse erguido nos seus ombros, dizendo-me: é aquele, é aquele! Se eu quisesse jurar de ter individuado claramente o novo Bispo, não seria sincero: mas a multidão, as aclamações, o cortejo de carros ficaram profundamente impressos na minha fantasia.
Entrando no Seminário, conheci o Bispo de perto, quando no início do ano lhe eram apresentados os seminaristas. De cada um dos novatos ele queria saber o nome, sobrenome, idade e aldeia. E cada um de nós ficava de tal modo impresso na sua prodigiosa memória, que na segunda vez ele não precisava de anunciadores per nos reconhecer e individuar.
Talvez não seja orgulho lembrar aqui um elogio que o Bispo costumava fazer-me – depois de nos tornarmos, por assim dizer, amigos – quando acontecia de lhe passar por perto: parabéns, dizia-me, você honra o nosso Seminário.
Compreendi o valor daquele elogio somente muitos anos mais tarde.
Por causa daquela erva daninha que é a vaidade, e que faz ninho mesmo no coração das crianças, eu pensava que o elogio era devido à minha piedade ou aos meus estudos. Nada disso! Era um inventivo espontâneo do seu bom humor que, deparando-se com um garoto forte, branco, gorducho e bem corado, não via em mim senão uma apologia vivente do bom tratamento do Seminário, e que para mim – que não teria entendido bulhufas de “apologia” – ele traduzia naquela forma gentil: “Parabéns! Você honra o nosso Seminário”.
Eu vi o Bispo muitas outras vezes, e posso afirmar que para nós era uma verdadeira alegria poder encontrá-lo. No final do mês de Maio de 1895, nós o esperávamos ansiosos para o encerramento do mês de Maria, e o meu grupo estava passeando na rua da Estação na hora da chegada do trem de Savona, para sermos os primeiros a reverenciá-lo na sua chegada. Mas desceram do trem somente o Reitor e o Ecônomo; e, bem sérios, caminharam em direção ao Seminário. Desconfiamos que algo tinha acontecido, mas não podíamos imaginar o que realmente era. O Bispo tinha morrido!
Alguns dias depois fomos novamente à Estação para receber o seu corpo. Estava lá um grande público, chorando comovido. Não apenas apareceu o caixão encoberto, num instante foi lascado em pequenas relíquias: também eu fiquei com uma lasquinha que ainda guardo comigo.
Os anos passaram e, em 1923, vi novamente íntegro o corpo exumado do Marello no Cemitério de Acqui. Em seguida tive que tomar parte nos Processos canônicos; dois Ordinários: o primeiro, de 1924 até 1928; o segundo, em 1942 e 1942. E por último trabalhei também no Processo Apostólico, encerrado somente nestes últimos anos.
Perpassando o mais rapidamente possível pelas doces memórias do querido Bispo, que me enchem de perfume o coração, limitar-me-ei a três Estrelas que podem iluminar brevemente as diversas épocas da sua vida: 1) Do nascimento ao Sacerdócio; 2) Do Sacerdócio ao Episcopado; 3) Do Episcopado ao céu.
1) Do nascimento ao Sacerdócio
Uma manhã rósea com atmosfera límpida é sinal de um dia maravilhoso. Assim foi a manhã esplêndida do Marello.
Nasceu em Turim no ano de 1844; embora tenha bem pouco usufruído do carinho materno, todavia encontrou o calor de um ninho familiar junto aos avós, em S. Martino Alfieri , enquanto o pai cuidava dos seus negócios.
Os pulmões do garoto se oxigenavam com as brisas suaves e os perfumes agrestes das colinas de Asti e a sua alma inocente começou e continuou a respirar sem fim o Cristo.
A vizinhança ainda não tinha visto um garoto como ele, exemplo de piedade e de obediência. Gostava do silêncio e da vida retirada e não se via a divertir-se pelas estradas; de manhã cedo ia sempre ajudar à Missa: era fiel ao catecismo e o Pároco o chamava para ensinar os outros garotos. Os outros jovens diziam: “Você vai ser padre”. Tinham razão. Aquele rebento deveria ser transplantado para o Seminário. E foi!
Aplicam-se oportunamente aqui as palavras do Eclesiástico (39, 19): “Florete flores: Desabrochai em flores como o lírio. Trescalai um perfume suave. Elevai a voz e entoai cantos de louvor, bendizendo a Deus por todas as suas obras”. Texto que o Martini interpreta assim: Produzi flores de todas as virtudes, de tal forma que, como o lírio, sejais resplandecentes pelo candor da pureza e da inocência da vossa vida: espalhai folhagens agradáveis mediante a modéstia e a compostura dos vossos costumes: assim sereis dignos de cantar os louvores de Deus e de bendizê-lo por todas as suas obras.
Esse é o louvor unânime que Superiores, Professores e colegas atribuem ao seminarista exemplar, primeiro nos estudos, primeiro na piedade, simpático para com todos.
Mas a sua vocação devia passar por uma prova. O ânimo do Marello ficou um pouco perturbado por causa de conversas ouvidas a respeito de algum escândalo do clero; e o pai, que o preferia contador, aproveitou da ocasião para o convencer a deixar o seminário. Coitado do Marello, parecia um peixe fora da água! Continuava brilhante nos estudos, mas não tinha jeito e não queria abraçar o mundo: o engenheiro Bechis, onde ele ficava em pensão (1), chegou a dizer: este rapaz não foi criado para o mundo, deve ser padre.
Nossa Senhora, que ele considerava como mãe e que invocava sempre com fervor, veio reconduzi-lo para o seu caminho. Cerca de dois anos mais tarde (2) ele fica doente de tifo, e nos ardores da febre lhe parecia de ver uma batina suspensa e a Virgem da Consolata que lhe dizia: Ou você volta para o seminário ou eu te levo comigo. Ao aproximar-se do seu leito, o pai o ouviu dizer: Papai, ou te acontentei deixando o seminário, mas Nossa Senhora não está contente: ou você me leva de volta ou ela me leva consigo.
O pai o leva de volta; e Mons. Sossi, Vigário Capitular, à pergunta do aluno para ser readmitido, responde: ao Marello abrem-se não uma, mas todas as portas. Flores apparuerunt in terra, tempus putationis advenit: Aparecem as flores no campo, chegou o tempo da poda (Cant. 2, 12), e o Bea acrescenta em nota: de acordo com outros autores, cantationis, tempo de cantar.
No caso do Marello, devemos unir as duas traduções: dedica-se com grande esforço a podar constantemente os seus defeitos, entre risos e canções, motivando também os seus colegas.
2) Do Sacerdócio ao Episcopado
Um companheiro e amigo do Marello escreve assim: Por mais que se faça um grande panegírico do Marello jovem estudante e clérigo, será sempre um retrato desbotado e inferior à realidade, em todos os seus aspectos. E não estou exagerando (Delaude).
Por isso era impossível que os Superiores não o tivessem sempre em grande consideração. Tanto que, tendo sido chamado à sua diocese o Secretário de Dom Sávio, o Reitor do seminário sugeriu ao Bispo de tomar o Marello como secretário. E na véspera da Ordenação Sacerdotal o Bispo chamou o Marello e lhe disse que o destinava a ser Secretário, e que se preparasse para o acompanhar a Roma para o Concílio Vaticano I.
O Riccio, outro grande amigo seu, se condoia com ele dizendo: Você é tão delicado que teria necessidade de uma vida mais ativa e não de trancar-se. E tinha razão: em 27 de junho de 1871 o Marello lhe escrevia assim: “O meu estado de saúde era, é e será, como apraz a Deus, aquele que você conhece: semelhante àquele de uma panela quebrada, mas que resiste – contanto que não lhe dêem nenhum empurrão – e presta o seu serviço, em todas as utilidades domésticas, igual a uma nova”. E acrescenta que se conserva sempre fiel àquele princípio de
VIVER O DIA-A-DIA
Esforçando-se para a vontade de Deus em qualquer acontecimento. Mas não se pense que, nos seus lábios, “viver o dia-a-dia” significasse abandonar aquela “panela” à força das ondas do rio para que a empurrassem e transportassem.
No seu artigo “O homem como síntese de dois universos”, o Pende não admite o dualismo exagerado do Ribot, segundo o qual a inteligência é o farol que ilumina a estrada, enquanto o caráter é o verdadeiro motor que a faz percorrer, e declara que somente no reinado do coração, no reinado de um amor altruísta, o “homo sapiens” se concretiza transformando-se em “homo moralis”, ou seja, o mais distante e inconfundível, em comparação com o animal.
O cristão, e mais admiravelmente o Santo, não estuda cientificamente a síntese dos dois universos, mas procura vivê-la sublimada no dia-a-dia, obrigando as forças divergentes ou contrastantes a conviver em harmonia.
O Marello é rico de inteligência; tem também uma grande força de vontade e, mais adiante, falaremos do amor altruísta que tinha no coração. Mas sentia e reconhecia as suas fraquezas; sentia as lutas que tinham arrancado ao Apóstolo o grito: “infelix ego homo: quis liberabit me de corpore mortis huius?” E, com Deus, respondia: “Gratia Dei, per Jesum Christum Dominum nostrum” (Rm 7, 24) (3).
Como a planta se alimenta da terra e do céu (escreve ainda o Pende) – de terra através das raízes, de céu através do verde das folhas – assim o homem deveria nutrir-se de terra e de céu: de terra com o corpo, de céu com o seu espírito.
Palavras muito bonitas. Mas a fadiga do homem é bem diferente daquela da planta. A planta vive como nasceu das mãos do Criador; a natureza humana, ao contrário, não possui mais a integridade que tinha no início, com os progenitores: entrou nela um elemento perturbador que foge aos instrumentos científicos, mas que nem por isso é menos verdadeiro e menos real. E para nos curar e salvar veio o Cristo, trazendo-nos os elementos necessários, bastantes e superabundantes para nos restaurar de tal maneira que, unindo “terrena divinis – a natureza animal com a graça de Deus”, tudo em nós se oriente e eleve e reforme em Cristo.
Nós conservamos gratidão para com a ciência por aquilo que descobre de certo, de verdadeiro, de útil em nossa complexa natureza; mas de forma alguma devemos desprezar a Graça que, enxertando-se na natureza, dá-lhe a oportunidade de erguer-se e de chegar a DEUS, que nos criou para SI e no qual unicamente podemos a perfeita paz e alegria. Não sei se estou sonhando quando imagino que a santidade seja
UMA ATENTA E TRABALHADA “EQUITATIO” (=cavalgada)
“Atenta”, por um lado, para não dormir na cavalgadura; e, por outro, cuidando para que ela não empaque e nos jogue ladeira abaixo. “Trabalhada” para incitar, frear ou moderar a andadura.
Quantas vezes eu vi na sela o domador todo molhado de suor, e o cavalo ainda mais suado do que ele: o domador, pela fadiga de segurar com os joelhos os flancos do animal; o cavalo, porque aquela maneira de o controlar lhe dosava o respiro e, assim, era obrigado a caminhar ao passo.
Pareceu-me necessário lembrar estas coisas elementares para não cometer erros madornais no julgamento do Marello. Ao ver aquela sua imperturbabilidade e igualdade de espírito, alguém poderia dizer: veja que maravilha de caráter! Veja que milagre da natureza! Não:
NÃO MILAGRE DA NATUREZA,
Mas trabalho conjunto da natureza e da Graça: o cavalo caminha ao passo, mas o domador lhe controla os flancos; e tudo com tanta naturalidade e elegância que o esforço desaparecia quase sempre, para não deixar entrever senão um passeio interessante e divertido.
O Marello possui uma vontade forte e decidida – sabe que a indecisão, na maioria das vezes, é a causa principal que faz desvanecer os projetos mais lindos; sabe que o entusiasmo juvenil, à semelhança do éter deixado num vidro aberto, se volatiliza e se dispersa. Ele escreve que não se deve confundir a vontade passageira – e, portanto, insuficiente – com a vontade permanente e, por isso, eficaz. Quem é flutuante nas convicções, é sempre fraco e incapaz; ao contrário, é preciso crer sempre, uniformemente, logicamente e tenazmente. De nada valem as grandes inteligências (note que aqui a palavra lhe vai além do pensamento); são os grandes temperamentos que abalam o mundo. Pico della Mirandola vale muito menos do que o Papa Gregório VII, etc... O homem se transfigura com a força de vontade.
Estes pensamentos se encontram raleados nas cartas que o Servo de Deus escreve aos dois amigos Riccio e Delaude. E não eram apenas frases para impressionar: eram o espelho da sua vida.
Não permite que os lindos propósitos escritos quando clérigo se volatilizem como a éter deixado em vidro aberto. Por isso revê e atualiza
OS SEUS REGULAMENTOS
O que facilitava que cada coisa fosse distribuída e fixada no tempo certo.
Submetendo-se a um regulamento, tencionava a vencer a instabilidade da natureza e a obriga-la a dar tudo o que ela podia dar. E assim utilizava bem o tempo. Quando as circunstâncias o chamam à Cúria, ao Coro, ao confessionário, ao púlpito, ao Instituto “Migliavacca”, aos seus fradinhos, às várias famílias reunidas em Santa Chiara pela sua caridade, ele chega sempre tranqüilo e sereno no horário e tudo caminha como se o Marello não tivesse senão que pensar e prover a um só dos seus múltiplos afazeres e deveres. Mas o primeiro lugar e o tempo maior era dedicado a Deus, à alma, aos exercícios de uma intensa vida interior, sem a qual a ação exterior é como um corpo sem alma.
Nos primeiros 13 anos de sacerdócio, ele teve como exemplo e mestre de vida interior o próprio Bispo com o qual convivia. E o mestre acabou sendo imitador do aluno que, depois, ele quis como seu confessor.
Cada dia ele dava um certo tempo para a leitura de escolhidas vidas de Santos, que o incitavam a fazer também ele algo para o seu Deus. Mas não tinha indicação clara de estrada a seguir e, por isso, pensava com saudade na vida monástica. Dom Sávio o segurava dizendo-lhe que Deus queria dele algo no mundo: que continuasse a rezar; Deus lhe daria luz. E a luz veio. Dom Sávio sonhava com o surgimento de uma
CONGREGAÇÃO DE LEIGOS
Que fosse criada de propósito para ajudar os párocos nas tarefas mais humildes e mais necessárias.
O Marello penetrou naquela ordem de idéias e decidiu traduzi-las na prática. Conseguiu reunir os primeiros alunos que aceitaram com entusiasmo o seu ideal de pobreza, de obediência, de pureza, de doçura, de simplicidade, de caridade, de humildade, de silêncio, de operosidade santa marcada em tudo sobre a figura de São José, que o Marello soube transmitir plenamente àquela matéria bruta – a bem da verdade – mas não surda para o artista poder moldar.
A Congregação não pode continuar só com leigos, mas pode ser notada em alguns dos primeiros alunos o perfume da profunda e simples espiritualidade que o jovem sacerdote soube transmitir a eles. Aqueles irmãos, agora já idosos, encantam com a sua simplicidade, serenidade e candura quase infantil.
E quando o seu santo Bispo morreu, a Diocese procurou valorizar o espírito e a operosidade do Marello. Durante sete anos Diretor do “Migliavacca”, ele deixou nas suas conferências – por sorte anotadas por uma Irmã, e que provavelmente serão publicadas(4) – o espelho da sua alma que, desprezando as baixezas, como generosa águia, deseja educar os seus filhotes aos vôos das alturas e da luz.
Tornou-se Chanceler da Cúria, Cônego da Catedral, Diretor espiritual do seminário, e ainda encontrava tempo para se dedicar à juventude, que vivia abandonada; empenhava-se também no catecismo das escolas e no catecismo aos operários, e preocupava-se ainda com as pequenas plantinhas do Coleginho por ele criado para as vocações sacerdotais. E lhe parecia de não fazer nada, e à noite sentia-se contente de poder colocar o seu cansaço aos pés de Jesus Sacramentado, seu amor e sua delícia, para lhe dizer no final de sua jornada de trabalho: servi inutiles sumus = sou um servo inútil.
Não perdia nenhuma ocasião para preparar campo mais amplo para as obras de caridade. O Capítulo da Catedral de Asti o proclamou “LUCERNA LUCENS ET ARDENS = lanterna que arde e ilumina”, não tendo ele senão Deus como inspirador e razão última da sua múltipla atividade. O seminário de Asti o descreve como mestre de espírito por causa da santidade de vida, profundidade de doutrina, admirável equilíbrio de mente e de amor, numa harmonia perfeita de todas as suas forças.
Dom Ronco, sucessor de Dom Sávio na Diocese, declara a própria incapacidade de explicar a candura da alma do Marello, a amplitude do seu coração, a sua fidelidade e prudência no aconselhamento, a sua constância nos trabalhos que realizou com suavidade e humildade, razão pela qual tudo lhe dava certo e, por isso, conseguia a aprovação unânime do clero e do povo, que o proclamava sacerdote íntegro.
Ainda uma palavra sobre a realização do seu sonho. Depois basta.
No dia 11 de maio de 1883 a Santa Sé concedeu ao Bispo de Asti autorização para adquirir o ex-mosteiro das Clarissas, com a igreja anexa, que tinha sido reduzida a teatro; no dia 14 de junho de 1883 era assinado a documento de compra feito por Monsenhor Bertagna, pelos cônegos Sardi e Marello e pelo secretário do Bispo, Padre Bellino. A caridade necessita de espaço, assim como os pulmões de ar.
Para lá se transferem, em 1884, em primeiro lugar o hospício Cerrato para portadores de deficiências mentais; em seguida, os Oblatos de São José e lá tem início também o Coleginho para a promoção das vocações eclesiásticas. E em 1886, as Filhas de S. Ana. Desde o princípio, todas estas famílias ali recolhidas pesam nas costas do Cônego Marello (os outros responsáveis pela compra receberam outros encargos) e ele deve pensar na alimentação de todas aquelas bocas.
Feliz pela oportunidade de poder dedicar-se finalmente de corpo e alma à profusão da caridade, em 1885 ele se transfere para Santa Chiara e toma posse daquele seu reino dos pobres de Cristo. E onde encontrar as entradas?
Começou gastando tudo o que tinha de seu: cerca de 80.000 liras; e, tornando-se pobre não apenas de espírito mas de fato, pode dizer com mais confiança: “Pai nosso que estais nos céus”. E o Pai dos céus providenciou sempre, como providencia às aves dos campos. Talvez sejam estas as obras que o Pende invoca e que falam alto e claramente mesmo aos cegos e aos surdos voluntários.
Eis um episódio curioso... Vivia em Asti uma família educada pelo pai (que era e chefe) num espírito de comunismo agressivo, blasfemador de Deus, com desprezo e ódio contra o clero. Um dos filhos crescia respirando aqueles ares envenenados. Um dia, um da família começou a imprecar contra o Marello. O pai o repreendeu firmemente explicando que o sacerdote Marello não era como os outros, e declarando que a respeito dele só se podia falar bem. O garoto pensou: então existem sacerdotes que são diferentes dos outros. E foi procurar os filhos do Marello; conheceu-os de perto, estudou-os, amou-os, entrou na sua família e atualmente é um digno sacerdote que talvez muitos conheçam pelos seus escritos (5).
Esta é a grande eficácia da escola dos Santos.
3) Do Episcopado ao Céu
Parece que o Cardeal Mistrangelo não tivesse do Bispo Marello o alto conceito que dele tinha o Papa Leão XIII, o qual teria dito: quando voltarem para a Diocese, digam, digam que lhes mandei uma pérola de Bispo.
O Mistrangelo, ele mesmo o diz, não conhece particulares da vida do Marello. Nas relações que teve com ele, como Reitor das Escolas Pias de Ovada, declara de ter tido a impressão de um bom Bispo. Mas entre a “pérola de Bispo” do Papa Leão XIII e o “bom Bispo” do Cardeal Mistrangelo existe uma grande diferença!
É verdade. Leão XIII tinha tido ocasião de conhecer bem o Marello durante os longos meses do Concílio Vaticano, quando o Bispo de Asti juntamente com o seu secretário e outros eram hóspedes no Quirinal, e o Cardeal Pecci presidia na Mesa.
Aquele comportamento quase angélico do Marello, as suas palavras comedidas e cheias de sabedoria, a sua doçura, a sua amabilidade impressionaram o Cardeal, o qual, eleito Papa, o doou como uma pedra preciosa à Diocese de Acqui. Já haviam transcorrido mais de vinte anos, mas sem dúvida o Pontífice associou ao nome da Diocese o nome do Marello, que para lá havia enviado.
O Mistrangelo, que vivia na diocese, não se deu conta disso – não percebeu que o povo o chamava de santo – não intuiu o que intuíra o sacristão de Ovada, o qual colocou à parte alguns objetos usados pelo Bispo, dizendo: conservem-nos com cuidado, pois um dia serão relíquias. Não conheceu tão pouco a gratidão que Dom Marello tinha para com os Padres das Escolas Pias. O Bispo não estava bem de saúde, e o secretário o exortou para permanecer em Acqui e não ir a Savona. Ia celebrar na igreja dos Padres das Escolas Pias o centenário de São Felipe Néri, a quem era dedicada a igreja. Mas o Bispo não ouviu razões de saúde e foi para acontentar aqueles religiosos de valor e que tanto bem faziam na Diocese.
Deus havia determinado que se encontrasse com a morte em Savona.
São incompreensões que a gente tenta explicar e compreender, mas que nem por isso deixam de ser verdadeiras e reais.
Mas se o Mistrangelo conhecia pouco o Marello, muitos e muitos outros o conheceram muito bem e o valorizaram: entre estes, de maneira especial o Pe. Cortona, o Cardeal Gamba e Monsenhor Peloso. O qual Monsenhor Peloso recorda também ele o episódio confirmado pelo Cardeal; e, creio, com uma memória mais feliz e mais segura.
Durante o centenário de São Luís – assim ele declara no processo – nos encontrávamos juntos com muitos outros peregrinos na Basílica Vaticana e estava conosco também o Padre Afonso M. Mistrangelo, agora Cardeal de Florença. O Santo Padre estava passando junto às filas de peregrinos, abençoando. Quando chegou perto do nosso grupo, um dos seus acompanhantes anunciou-lhe: Bispo de Acqui. E o Papa: Bispo de Áquila? – Não, Bispo de Acqui. Então o Santo Padre, com o rosto alegre apertou-me fortemente as mãos – eu que, contrariamente às ordens, estava ajoelhado aos seus pés – e disse: Ah! Dom Marello... vocês têm um tesouro, e disse outras palavras que eu não lembro. Ouvindo as palavras do Papa, o Servo de Deus ficou com o rosto vermelho e mudou o assunto para os méritos dos Padres das Escolas Pias que tinham uma casa em Ovada e dos quais o Mistrangelo era Reitor.
Vocês têm um tesouro! Mas o tesouro fica escondido. O que é mais fácil para um Bispo. E assim nos fogem as coisas mais lindas da sua vida santa.
As testemunhas chamadas para o processo, elogiam as suas maravilhosas virtudes, mas o espaço destas nos impede de recolher ao menos um ramalhete de flores.
Parece-me, todavia, que, em germe, a grandeza do Bispo Marello esteja presente nos breves acenos que encontramos nas suas cartas ao Vigário Capitular, e que podem ser compendiados numa só palavra: Amor!
25 de dezembro de 1888: “A tantas pessoas queridas (Capítulo da Catedral e Seminário), que me circundam com seu carinho, gostaria de dizer individualmente uma palavra afetuosa... nestes dias santos a eles eu faço os melhores votos e os abraço espiritualmente comigo dentro do coração adorável do Menino”.
11 de fevereiro de 1889 (dia do Consistório): “Retirando-me nos Exercício espirituais de preparação à Consagração, farei perante Deus aquelas promessas que agora não teria coragem de colocar no papel, embora eu as tenha já compendiadas no desejo de que omnia mea vestra sint... = tudo o que é meu é vosso também...”.
17 de fevereiro de 1889 (dia da Consagração): “A primeira bênção já a enviei à Diocese com a qual acabo de ser noivo através do anel sagrado”.
Amor que significa dom total de si e que se torna o seu distintivo, a sua sabedoria, a sua força.
Amava os sacerdotes – assim declara Monsenhor Peloso – que ele desejava muito ligados ao Bispo seja pelo grande conceito que tinha do Sacerdócio, seja porque estava convencido de que este era o único meio para corrigi-los e aperfeiçoá-los; e ainda porque estava certo de que somente através dos sacerdotes é que o Bispo podia exercer uma influência eficaz sobre o povo.
O Balostro, seu secretário pessoal, declara: “Os sacerdotes que queriam conversar com ele nunca me perguntaram antes qual era o seu humor, e nunca percebi que, ao saírem, demonstrassem contrariedade ou descontentamento: o que, por outro lado, às vezes observei durante os 35 anos que servi outros Bispos”.
Aliás, conseguia mudar o ânimo dos sacerdotes. Monsenhor Peloso conta de um sacerdote, cheio de rancor contra o Vigário, e de conseqüência contra o Bispo, o qual entrou para conversar com Dom Marello somente graças à insistência do secretário, e saiu do longo colóquio exclamando: “Com esse homem não tem jeito mesmo: é preciso fazer o que ele quer”.
Quando você e aproxima de uma alma que vive inteiramente e perfeitamente a vida cristã, você percebe que sobre ela se irradia uma luz calma, serena, límpida que te toca sem te ofender, e penetra no seu íntimo, e ao mesmo tempo algo vai se desfazendo e modificando dentro de você: passa a dominar você, sem descontentamento, aliás parece que você se alegra com a própria derrota.
Era a caridade de Dom Marello, que sabia penetrar nos corações não apenas dos indivíduos, mas das populações que, encantadas com a sua doçura, com a sua bondade, com o que percebiam ser seu desejo de bem, eram atraídas para o Bispo por uma força misteriosa e não se cansavam de ouvi-lo pregar.
Alguns lavradores de Vesime, meses depois da Visita Pastoral, sem perceber davam uma profunda explicação dessa virtude, ao dizerem: “parecia mesmo que lesse no nosso ânimo e nos dissesse aquilo de que precisávamos”.
Era mesmo assim e em todas as paróquias da imensa diocese, pois conseguiu visitar a todas (exceto Cavatore, que deixara por última, pois estava terminando a construção da igreja) naqueles poucos anos de episcopado... E não tinha automóvel, que ainda devia ser inventado; as estradas não eram boas e a muitas paróquias só se chegava a cavalo ou a pé. Todas sentiram o calor da sua alma paterna, todas o chamaram santo.
Percebo agora que consegui dizer pouco ou nada – e o tempo passou. E tenho a impressão que o Padre Reitor ou alguém no lugar dele já murmure: Claudite iam rivos pueri, sat prata biberunt (6).
Vou obedecer. Mas deixem-me, por favor, derramar ainda um pouco de água para regar as margens do campo, que ainda estão secas. Quero dizer, um último pensamento, que seria uma vergonha omitir, isto é, que Dom Marello, ao trabalhar para a salvação das almas dos outros, não esquecia da sua. Por outro lado, a fogueira não alimentada, acaba morrendo.
Somente o seu santo confessor, Monsenhor Rastero, conheceu o segredo do seu crescimento interior... E teríamos colhido alguma coisa também nós se Monsnhor Peloso, por demasiada delicadeza, logo que o Bispo morreu, não tivesse queimado o que teria sido melhor conservar, ou seja, os cadernos com os seus exames de consciência. Eles teriam respondido a uma pequena curiosidade que ainda permanece.
Pelos Processos nós sabemos que durante a Visita à paróquia de Montechiaro, o Servo de Deus pediu que lhe trouxessem para o quarto a Sagrada Coroa de Espinhos, venerada na localidade, e reconhecendo-a verdadeira, ficou cerca de duas horas em adoração perante ela.
E as suas práticas de piedade cotidianas duravam também duas horas? Ou mais? Ou menos? Não sabemos, pois as fazia no segredo do seu quarto e o seu secretário nunca teve a coragem de violar aquele segredo.
Mas sabemos que costumava parar perante um lindo Crucifixo, que talvez acabará sendo colocado na igreja do Seminário (7), para que os seminaristas, ajoelhando-se na frente dele, lembrem-se de pedir insistentemente a tão necessária ciência da Cruz, e façam uma oração pela glorificação do seu Servo fiel.
Masone, 19 de fevereiro de 1954.
Notas
(1) A frase “o engenheiro Bechis, onde ele ficava em pensão”, deve ser corrigida assim: “o engenheiro Bechis, junto ao qual o Marello fazia prática de agrimensura, em Turim”. A pensão de José Marello e do seu pai, naquela época, era com os senhores Marty, na Rua XX Settembre, na esquina da praça da Catedral.
(2) Não é exato: ele ficou em Turim de 13 a 14 meses, no máximo.
(3) “Infeliz que eu sou! Quem me libertará deste corpo de morte?”. “A graça de Deus, por Jesus Cristo, Nosso Senhor”.
(4) Ver “Scritti e Insegnamenti di Mons. Giuseppe Marello”, pág 240-324.
(5) Trata-se do Pe. Giacinto Carretto ( + 1974).
(6) “Ó crianças, fechem os rios, pois os prados já beberam suficientemente” (Virgílio, Éclogas, III, 111).
(7) Este Crucifixo encontra-se atualmente no grande salão (aula magna) do Seminário de Acqui.
Artigo publicado em Marellianum 1, janeiro-março 1992, páginas 37-47
Tradução: Pe. Álvaro de Oliveira, OSJ

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