Pe. Severino Dalmaso, osj
UMA MÃE NO CÉU
José Marello tinha três anos, três meses e onze dias quando morria, em Turim, sua mãe Anna Maria Viale, a 5 de abril de 1848, com apenas 25 anos de idade.
Não sabemos até que ponto a grande história do tempo tenha influído sobre a pequena família Marello. Por certo, aqueles dias em Turim não eram tranqüilos para ninguém, se pensarmos que girava pela cidade uma terrível epidemia, e é fácil intuir que também mamãe Anna Maria tenha dela sido vitima, entrementes, os dois órfãos eram confiados a Catarina Secco, irmã da primeira mulher de papai Vicente, a qual foi para eles como “uma segundo mamãe”, tomando conta deles até 1852, quando chegou a hora de casar-se com Carlos Marello.
UMA GUIA NA VOCAÇÃO
A devoção a Maria Santíssima acompanhou o jovem Marello na sua vocação ao sacerdócio e o salvou dos desnorteamentos das ideologias do tempo.
Ao concluir o curso primário em São Martinho (de agora em diante o chamaremos São Martinho Alfieri, como de fato foi chamado após a morte do Marello), o pai Vicente, em uma de suas viagens de negócios até Savona, levou José consigo para premiá-lo pelos bons resultados obtidos nos quatro anos de escola. Savona era famosa pelo seu comércio e pela produção de cerâmica e louças de qualidade.
Lá José viu o mar pela primeira vez e visitou a cidade junto com o pai, depois subiram ao santuário de N. Sra. da Misericórdia, a oito quilômetros de distância, num vale estreito batido pela torrente Letimbro.
A esse encontro com N. Senhora, deve-se a sua vocação ao sacerdócio. Ele não manifestou de imediato a sua intenção ao pai, mas, voltando a casa, “pediu-lhe que o pusesse no Seminário, onde entrou com cerca de 12 anos” (Pe. Cortona). Talvez o pai, levando-o a Savona, fizesse planos para o filho, pensando em incliná-lo para o comércio, de modo que um dia pudesse tomar nas mãos, como primogênito, a administração dos negócios da família. Maria Santíssima, em vez, chamava-o para a via do sacerdócio e uma testemunha irá declarar nos Processos de beatificação: “desde os primeiros anos, tinha demonstrado inclinação para o estado eclesiástico com seu comportamento edificante, sobretudo em servir ao altar” (Pe. L. Garberoglio).
No ano letivo 1856-57, José Marello freqüentava a primeira série do ginásio no seminário de Asti. Fez em seguida a segundo série, a terceira e a Quarta, depois da qual passou diretamente à filosofia, que freqüentou por dois anos inteiros. Mas os tempos eram tristes sob muitos aspectos. Na metade do terceiro ano, as dependências do seminário foram requisitadas por causa da Segunda guerra da independência, e restaram nas mãos do governo, sob um pretexto ou outro, até novembro de 1865. Marello e os companheiros seminaristas precisaram arranjar-se nas casas de algumas famílias de Asti, freqüentando as aulas nos locais da biblioteca do seminário. Os seus colegas de classe, depois do quarto ano, por intermédio de São João Bosco, foram transferidos para Turim, onde permaneceram até novembro de 1863, freqüentando a quinta série ginasial e dois anos de filosofia.
José Marello permanecera em Asti, por vontade do pai, e foi admitido à filosofia, após um exame sobre as matérias da quinta série ginasial.
A diocese de Asti estava vacante desde 1859, mas já desde 1857 o bispo Dom Felipe Artico precisara retirar-se para Roma, devido às perseguições desencadeadas contra ele pelos administradores públicos liberais e maçons, entre os quais se distinguiu o astigiano Ângelo Brofferio, político e escritor mordaz. A diocese terá um novo bispo somente em 1867 na pessoa de Dom Carlos Sávio. Era natural que também o clero oferecesse motivos de divisões e contrastes, ficando sem direção por tantos anos.
As idéias liberais do “ressurgimento” triunfavam no Piemonte e exaltavam a juventude despreparada também dentro dos seminários. José escrevinhava em seus cadernos de lógica, frases picantes como esta:
“Não se resolverão os problemas da Itália, sem a interferência do sábio Marello J.”
Ele não chegou, como seu colega de classe José Fagnano, a alistar-se nas tropas de Garibaldi, para depois ser acolhido por São João Bosco e tornar-se salesiano e bispo na Patagônia. Mas é certo que o ufanismo juvenil pegou também o Marello e o levou a deixar os estudos seminarísticos para matricular-se, em Turim, nas primeiras escolas técnicas que o governo havia aberto ali, importando os modelos da “evoluídas” nações protestantes do norte da Europa.
Em janeiro de 1863, José Marello, já há três meses em Turim, escrevia num pedaço de papel que chegou até nós: “o que será deste ano de 1863 que agora começamos?”. Foi um ano cheio de experiências para ele, mas também de desilusões e arrependimentos pelo passo em falso que tinha dado. Mais de uma vez ele se dirigiu ao Santuário da Consolação para desafogar suas angústias diante da Virgem, a qual tomou-o sob seu cuidado e no mês de dezembro, atacado de tifo, fê-lo entender de modo bem claro que tê-lo-ia curado só se fosse para retornar ao seminário.
Também o pai, que o havia seguido a Turim e queria-o na condição de leigo, na iminência de perdê-lo, “para salvá-lo não poupou nem médicos nem remédios, mas entendendo que os meios humanos já não lhe valiam, dirigiu-se a N. Sra. da Consolação, tão querida aos turinenses. Por sua vez, o enfermo, para obter a suspirada cura, já havia feito voto que, se sarasse daquela doença, haveria de voltar ao Seminário para retomar os estudos interrompidos. E Maria, nossa bondosa Mãe, que no caro doente via um futuro zelador de seu castíssimo esposo, acolheu as orações do pai e dos outros parentes que rezavam com ele e em breve tempo, dissolvido todo perigo, começou a entrar em plena convalescência”. Assim descreveu Pe. Cortona a graça da cura, obtida por especial intervenção de Maria Santíssima. Na metade de dezembro de 1863, aconteciam esses fatos em Turim, e a 17 de janeiro de 1864, José Marello já estava em São Martinho Alfieri , onde o seu pároco, Monsenhor João Battista Tôrcchio, revestia-o com o hábito clerical e o reconduzia, depois de um mês de convalescença, ao seminário de Asti.
Artigo publicado em JOSEPH, maio 2001
Tradução Pe. Alberto Antonio Santiago, osj

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