Ano Marelliano
Artigo da Semana
JOSÉ MARELLO: AS ORIGENS DA SUA ESPIRITUALIDADE
Autor: Pe. Severino Dalmaso, osj
O JOVEM MARELLO
O século XIX no Piemonte, sofria no bem e no mal os maiores influxos da cultura política, social e religiosa de sua vizinha, a França. As contínuas referências, nos escritos do jovem Marello, aos autores franceses (Fenelon, carta 4; Michelet, carta 4; Chateaubriand, carta 6; Pascal, carta 6; Monsenhor Dupanloup, carta 15; Monsenhor Bougaud, carta 23; Guizot, carta 25; Lacordaire, Scritti p. 20), denotam um interesse crescente por aquele tipo de cultura, que em literatura se chama romantismo (recorde-se também a sua exaltação de Manzoni na carta 6), com as diversas nuanças que o mesmo fenômeno apresentava.
Ora, enquanto o romantismo italiano era preferencialmente de tipo literário e político, o francês, ao menos no aspecto religioso, apontava para o empenho social, que era o que mais ressonância encontrava no coração do clérigo Marello.
É preciso, depois, considerar que no Piemonte, por boa parte ainda do Século XIX, perdurava uma cultura religiosa de tipo jansenista e galicano, como o demonstra a aversão da Universidade Católica de Turim e de vários bispos piemonteses ao primado de jurisdição do Papa e de sua infalibilidade, ao menos até à definição dogmática do Concílio Vaticano 1. Neste clima, adquirem um valor especial as pesquisas do clérigo Marello sobre as fontes da espiritualidade cristã, como quando afirma: “O programa humanitário da religião cristã, sem contar que é um bocado mais brilhante que o das associações ad hoc, tem ainda sobre este último a vantagem da antigüidade e o mérito da aplicação em larga escala que sistema algum do mundo poderá jamais negar-lhe” (carta 5). Nesse juízo podemos entrever o eco do “Géni du Christianisme” de Chateaubriand e da escola social francesa, promovida por Monsenhor Dupanlloup.
Esse tipo de romantismo religioso, se assim o quisermos chamar, leva o mérito de Ter suscitado o empenho de recolocar a Igreja dentro das realidades sociais, querendo sintonizá-la com os novos tempos, de onde ela tinha sido posta para fora pela cultura positivista. “O romântico senti-se orientado, no profundo de seu próprio ser, para a realidade espiritual, não para perscrutar sua entidade teológica, mas para degustá-la na sua inspiração imaginativa, emocional e estética. Ele se percebe intimamente predisposto a acolher a inspiração do evangelho, a viver o sentimento de adoração e de expiação, a venerar a soberania de Deus na oração litúrgica, a situar-se em clima de afetividade interior que faz preferir os autores espirituais que falam ao coração; aprecia a devoção popular, testemunha de um genuíno sentir” (T. Goffi, La spiitualità dell’800, p. 28).
Coligar tudo isso ao renascer das devoções no século XIX, depois do grande sopro do jansenismo, pode também não ser suficiente, mas écertamente uma pista válida para explicar ao menos os inícios da impostação espiritualística que o jovem Marello imprimiu à sua formação seminaristica, como preparação para mais aprofundados desenvolvimentos sucessivos. De um lado, a cultura dominante tinha levado à alienação da Igreja (galicanismo - laicismo) e com isto tinha-se afastado de Cristo (racionalismo) e de Deus (positivismo - materialismo - ateísmo); por outro lado, vemos o Marello tomar posição nítida a favor da religião com estas palavras: “Deixando de fora a mão de Deus, todas as circunstâncias humanas favoreciam as nossas esperanças. (...) Eu disse deixando de fora a mão de Deus, pois só nela os homens de boa vontade devem depositar confiança, humanamente incapazes como são de levantar uma barragem contra a onda crescente da irreligiosidade e da libertinagem (carta 5). Recolocando Deus em primeiro lugar, a figura de Jesus Cristo voltava a ser honrada e apreciava-se sempre mais a Igreja na pessoa do Papa. Nascia uma religião mais concreta, mais humana, porque mais cristocêntrica e mais eclesial. São João Bosco sintetiza este programa assim: “Os pastores nos unem ao Papa; o Papa nos ume a Deus” (1850). O Marello por sua parte, irrompia no grito: “Viva Pio IX, Pontífice Infalível” (carta 64).
UMA ESPIRITUALIDADE SEMPRE MAIS MADURA
O argumento apenas acenado mereceria um estudo mais profundo, estendendo-o a todas as formas de espiritualidade do século XIX, que em geral se mostravam vivazes e mais próximas do povo, com o desenvolvimento das devoções populares ao Sagrado Coração, a Nossa Senhora e a São José. Naquele clima nasceram muitas congregações religiosas, masculinas e femininas que, refazendo-se a essas devoções, souberam levá-las a um grau de intimidade e de aprofundamento teológico, rico de boas conseqüências. As devoções que se formavam ao redor das várias congregações religiosas, correspondiam novos tipos de espiritualidade e de atividades apostólicas, numa vivência evangélica de grande empenho.
O sacerdote José Marello inspirou-se também ele nessas devoções, formando para si uma espiritualidade própria, que brotava da Eucaristia e se desenvolvia na intimidade com Maria Santíssima e com São José, a ele tão caros. De uma piedade tão concreta provinha nele também uma operosidade apostólica e caritativa, cheia de obras construídas no silêncio e no pleno abandono à vontade de Deus, imitando o seu modelo São José.
À medida que sua espiritualidade se delineava, fazia-se também sempre mais madura e, então, sobretudo como sacerdote e como fundador, as motivações culturais e sociológicas do tempo não bastavam mais para explicar o seu grande progresso na santidade através da prática de todas as virtudes. Pouco depois de sua ordenação sacerdotal, ele escrevia: “Não chegamos a conhecer nos seus segredos a grande Economia da Providência, mas sabemos através dos fatos que a fé opera todos os dias, nas almas, os maiores milagres.
A proximidade com o seu bispo, Dom Sávio, e a sua presença em Roma durante o Concílio Vaticano 1, contribuíram de modo determinante para este salto para frente do seu espírito, que agora fundia-se sempre mais com a voz dos pastores e encontrava no papa Pio IX a inspiração mais autêntica para sua espiritualidade e para o seu amor à Igreja.
Pio IX, o papa da Imaculada, que se dispunha a proclamar São José patrono universal da Igreja, constituiu para o Marello a referência mais direta para desenvolver em si o desejo de “servir aos interesses de Jesus na Igreja, sob os auspícios de São José” (cfr. Carta 76).
Desta forma, ele chega a descobrir claramente a vontade de Deus a seu respeito e, sustentado por um grande amor à Igreja, caminhou para a fundação da Congregação, colocando em primeiro lugar “os caros interesses de Jesus”, a serem cuidados “na imitação de São José O aprofundamento da sua espiritualidade deu-se, depois, com o estudo das vidas e dos ensinamentos de Santa Teresa e de São Francisco de Sales, os seus grandes mestres exemplares. Daqui vemos como também os santos são filhos de sua época, mas ao mesmo tempo sabem superá-la e tomam-se profetas que abrem novos caminhos do espírito e novos horizontes para a atividade apostólica.
Esses novos caminhos e esses horizontes foram, para Dom Marello, a fundação da Congregação dos Oblatos de São José, à qual ele se devotou com espírito profético e carismático e deixando para nós a herança preciosa de seu espírito.
A EUCARISTIA E O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
AMA A EUCARISTIA
“No século XIX, enquanto a teologia ia elaborando em que grau de fé deveriam ser acolhidas determinadas verdades reveladas, o povo cristão recolhia sua fé sobretudo em Jesus Cristo presente corpo-sangue-alma-divindade na Eucaristia. Dessa fé em Jesus Eucarístico , germina uma difusa prática devocional, eclesial e eucarística: adoração e comunhão como fontes de graças particulares” (T. Goffi, La spiritualità dell’800). José Marello, filho de seu século, sente dentro de si a necessidade da Eucaristia e, desde jovem clérigo, faz dela o alimento de sua vida espiritual. A partir desta frase, podemos julgar o quanto ele era dela enamorado: “Delaude, abracemo-nos em Deus e, quando estivermos para unir-nos a Ele na mística união da Eucaristia, transfiguremo-nos (carta 11). Durante os anos de teologia, no seminário de Asti, escreve o padre L. Garberoglio, ia receber com mais freqüência do que os seus companheiros, a Santa Comunhão”. Com ele estava o amigo Egidio Mofta, do qual o Marello dirá: “(a ele) vou devedor de muitas coisas que formam um segredo aquém da tumba, e serão uma preciosa revelação no dia do juízo” (Scritti p. 40). Não sabemos a razão de tanta intimidade, mas não estamos longe de acreditar que essa nasceu ao redor da Eucaristia, por cuja freqüência eles eram apontados entre os companheiros.
Mas é sobretudo como sacerdote e como bispo que o Marello recoloca na Eucaristia a sua força e se faz seu fervoroso propagador. Eis a respeito alguns testemunhos do padre L. Garberoglio: “A Eucaristia o atraía e o absorvia todo, a ponto de alguém dizer: parece que ele vê o Senhor”. “Rezava muito, e nós o víamos diariamente no coreto da nossa igreja, defronte do altar do Santíssimo, especialmente no agradecimento da Santa Missa”. “Inspirava e exortava à piedade: disso se falava em casa, e ouvi também que aqueles de Àcqüi tinham a mesma impressão, observando seu bispo a celebrar”.
Devotíssimo do SS.mo Sacramente do altar, quando chegava à Comunhão na Missa, concentrava-se todo no Deus humanado que estava para receber, e parecia que saciasse o espírito naquele banquete celeste. Nosso confrade Pe. Pedro Bianco afirmava tê-lo visto naqueles momentos com o rosto vermelho em chamas
Não admira que ele nas suas homilias recomendasse amiúde a Comunhão freqüente, seja em Asti aos seus Oblatos como em Àcqüi durante as visitas às paróquias da diocese. “Na santa Comunhão - dizia ele - Jesus nos faz todos irmãos no seu preciosíssimo sangue que comunica contemporaneamente a cada um de nós nutrindo-nos a todos com seu próprio corpo. Deveríamos, por isso, Ter em comunhão as alegrias e as dores, as esperanças e as aspirações, viver todos em um só coração e em uma só alma: a alma de Jesus” (Scritti p. 337).
APÓSTOLO DA EUCARISTIA
Lemos nos Atos Oficiais do Congresso Eucarístico de Turim, a 4 de setembro de 1894: “Terça-feira de manhã, às 7 horas, assistido pelos cônegos Nicco e Grignolio, celebrava Dom José Marello, bispo de Acqüi. A participação na Comunhão foi comovente; por uma hora e três quartos, balaustradas de comungantes cheias, ordenadas, sucediam-se sem interrupção, com um ardor e uma piedade admiráveis. O ilustre celebrante, comovido com a lembrança de que naquela igreja recebera o batismo, dirigia à multidão afetuosas palavras. Recordava o batismo ali recebido, e acrescentava: “O meu coração goza pelo grande espetáculo de fé que Turim dá nestes dias. Deste fausto acontecimento ficará indelével memória em todos, e aquele brado de reconhecimento que brota espontâneo dos lábios de cada um por tanta alegria espiritual, terá um eco longínquo que repercutirá por todo o mundo católico. Nós, paroquianos de Corpus Domini, devemos exultar por isso com uma alegria particularmente nossa, e por isso, a tanta letícia devemos contrapor o propósito solidíssimo de querer por toda parte e com todas as nossas forças propagar o culto àSantíssima Eucaristia”.
A igreja do Corpus Domini, em Turim, recordava o grande milagre eucarístico ali acontecido em 1453 e por isso tinha sido escolhida como sede de numerosas celebrações durante o II Congresso Eucarístico Nacional (o primeiro fora celebrado em Nápoles, em 1891).
No fim do século XIX, chegava assim ao ápice aquele processo de devoção eucarística que se vinha desenvolvendo nos decênios precedentes e que encontrará sua aplicação nos decretos sobre a Comunhão freqüente e sobre a primeira Comunhão das crianças, emanados por 5. Pio X.
Para esse desenvolvimento da piedade eucarística contribuiu não pouco o Pe. Marello, de todas as formas que lhe eram possíveis. Desde 1873, ele havia dado início, na igreja restaurada do Michelerio, à prática da adoração eucarística semanal, da qual participava a fina flor das almas devotas da cidade de Asti. Não contente ainda, ele instituiu a “Pia União das adoradoras perpétuas no século”, que era uma associação de pessoas leigas, que se empenhavam em uma adoração contínua em casa, em horas escaladas ao longo do dia e da noite. Para elas preparou um pequeno opúsculo, cheio de conselhos e de orações, e agregou a Associação àquela das Irmãs Reparadoras de Monza, onde havia um dos tantos mosteiros, similares ao que fora fundado em Roma (1807) pela Madre Maria Madalena da Encarnação.
Naquele opúsculo, o Pe. Marello escrevia: “Uni-vos em espírito àquelas sagradas virgens, e praticando em modo conforme ao vosso estado aquelas regras que para isso estão neste livrinho, partilhai com elas as vantagens e a glória de sua nobre ocupação. Eu disse: praticando em modo conforme ao vosso estado as regras, etc., porque é absolutamente necessário que não falteis com nenhum dever do vosso estado e da vossa condição. Aliás, é preciso que a primeira prova de amor a Jesus sacramentado seja o exato cumprimento dos próprios empenhos”. São Francisco de Sales, na Filotéia, não falava diversamente, quando exortava as almas à devoção, cada um no próprio estado de vida.
A prática da adoração semanal continuou ainda por muitos anos, mesmo depois da fundação da Congregação, como atesta o Pe. Cortona: “A sua devoção ao SS.mo Sacramento, ele a demonstrou ao prescrever aos seus filhos espirituais a adoração eucarística todas as quintas-feiras e por toda a noite nos três últimos dias de carnaval e na quinta-feira santa”. Ele, continua outra testemunha, “inculcava em todos, também para as crianças e os doentes crônicos, a visita ao SS.mo feita livre e individualmente ao longo do dia, especialmente durante o recreio, e foi um dos primeiros propagadores da comunhão freqüente, em casa e em meio ao povo”. Não é exagerado dizer que a Congregação por ele fundada nasceu e desenvolveu-se no tronco sólido das práticas eucarísticas, que por anos se desenvolveram no Michelerio e que continuaram, depois, na comunidade.
O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Na Congregação dos Oblatos de São José, desde as origens, a devoção ao Sagrado Coração sempre esteve unida à devoção à Eucaristia. Existem fortes motivos teológicos a favor desse fato, já que o amor do Coração de Jesus por nós revela-se sobretudo não sacramento do amor que é exatamente a Eucaristia.
Mas, além desses motivos gerais, existem outros de caráter contingente, ligados à vida do Fundador, os quais é bom levar em conta para uma avaliação mais completa. As adorações das quintas-feiras, que o Pe. Marello dirigia todas as semanas, aconteciam na igreja do Jesus, assim denominada porque dedicado ao Santo Nome do Senhor. Ora, a festa do Santo Nome caía a 2 de janeiro e por isso , aquele mês era dedicado a honrar o Sagrado Coração, sobretudo a partir de quando o papa Pio IX estendeu sua festa a toda a Igreja, em 1856.
Um assíduo pregador do mês do Sagrado Coração, em Asti, foi o Pe. Cortona, o qual a 5 de fevereiro de 1893 recebia esta carta de Dom Marello: “Faz mais de um mês que não recebo notícias (do Instituto) de Santa Chiara. Pensando, porém, que o Pe. Cortona tinha o peso da pregação quotidiana (na igreja de São Segundo) e os outros estavam sobrecarregados de trabalho, resignava-me a esperar a visita anunciada e com ela um mundo de boas novidades. Agora, o mês já expirou e o visitador não chega, mas manda a substitui-lo uma carta assaz breve, etc.”.
A carta, com essa tácita admoestação, é reveladora de uma tradição de devoção ao Sagrado Coração, promovida pelos primeiros Oblatos, seguindo as indicações do Fundador, o qual encerrava o seu escrito com esta oração: “O Coração de Jesus, movido pela Grande Virgem e por São José, faça com que possamos logo trocar notícias igualmente boas” (carta 246).
As Regras de 1892 reportam este aviso aos Oblatos: “À imitação de São José, procurarão ter uma tenra devoção ao Sagrado Coração de Jesus e empenhar-se-ão em propagar o seu Reino, tomando-o conhecido e amado especialmente no seu Sacramento de amor, recebendo-o o mais que possam, e fazendo com que outros o recebam, pois é o único que pode sanar os sumos males que afligem a sociedade” (Scritti p. 134). A festa do Sagrado Coração sempre foi celebrada na Congregação com muita solenidade, e a tradição era de fazer naquele dia a procissão eucarística no interno do instituto, unindo a devoção ao Sagrado Coração com a fé eucarística, segundo a vontade do Fundador.
Artigo publicado em Joseph, fevereiro 2001
Tradução Pe. Alberto Antonio Santiago, osj

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