A Formação Espiritual de São José Marello

Ano Marelliano - Artigo da Semana - Edição 04

A FORMAÇÃO ESPIRITUAL DE SÃO  JOSÉ MARELLO

Pe. Antonio Geremia, osj 


Todos sabemos que José Marello em 1874 teve a inspiração interior de se tornar religioso trapista.

Não foi simples sentimento passageiro, mas algo bem enraizado em sua alma e vindo da vontade firme de se consagrar totalmente ao Senhor e de abandonar toda e qualquer coisa do mundo.


O mesmo pensamento voltou em 1876. Nas duas circunstâncias falou disso ao bispo e este o dissuadiu, e lhe disse que o Senhor esperava dele outra coisa no mundo.

Para compreender esta luta espiritual do Marello, é preciso lembrar que em sua "conversão a Deus", podemos distinguir três etapas:

A primeira remonta aos anos 1864-1865: coincide com sua volta ao seminário e consiste em sua orientação para Deus, após ter caído numa "ceticismo desolador" (Carta 23; Cartas 1-3).

A segunda remonta aos anos 1866-1868: coincide com a preparação imediata ao sacerdócio e consiste no esforço ascético para dominar a si mesmo (Cartas 1-16; Escritos, p. 24-39).

A terceira é dos anos 1869-1874: coincide com sua "comunhão de vida" com o bispo, que muito influenciou o seu espírito, com sua participação no Concílio Vaticano I, sua permanência em Roma e a visita à Trapa e consiste na firme vontade de "perder tudo para ganhar o todo" (Carta 27).

O Marello orientou-se pelo conselho do bispo, pronto ao sinal de Deus; entretanto aprofundava os conhecimentos da vida religiosa.

Teve nisto como mestres espirituais os três que sentaram cátedra na segunda metade do 800, isto é, Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Sales e Santo Afonso Maria de Ligório.

A biblioteca do Marello após sua morte imprevista e inesperada, andou dispersa, por isso não podemos conhecer todos os livros que possuído e lido por ele. Sabemos, porém, com certeza, que leu os "Exercícios Espirituais" de Santo Inácio e dele aprendeu o "voluntarismo", isto é, a ascese da vontade de luta contínua contra si mesmo, da fortaleza da alma, da abnegação e do espírito de serviço e de apostolado católico que ele resumia na expressão: "promover os interesses de Jesus" (C. 76).

Com os jesuítas José Marello sempre teve ótimos contatos e esteve em ótimas relações; em Chieri, Roma, conhecendo também o irmão do escritor Silvio Pellico; e cursou os exercícios espirituais em preparação à consagração episcopal na Vila Cecchina, em Borgo Santo Espírito, perto da cúria dos jesuítas, guiado pelo Pe. Cardella, então diretor da "Civilità Cattolica". Foi talvez por causa disso que na Congregação, por muitos anos, costumou-se convidar um padre jesuíta para os exercícios espirituais.

São José Marello certamente leu a "Filotéia", os "Entretenimentos Espirituais" e a "Vida Devota" de São Francisco de Sales.

Nomeado bispo em 1888 e tendo ido a Turim, passou nos salesianos para comprar a "Vida de São Francisco de Sales". Dele aprendeu a ascese da bondade, da mansidão, da brandura e da afabilidade; nele espelhou-se para alcançar aquele igualdade de espírito que imitou de tal forma que foi chamado por Pe. Dei Piazza de "Novo São Francisco de Sales".

De Santo Afonso ele leu certamente "O Grande Meio da Oração" e "A Prática de Amor a Jesus Cristo". Santo Afonso era naqueles tempos o mestre mais aceito pelos professores do "Convitto Eclesiastico" de Turim, verdadeira usina de formação espiritual, intelectual e pastoral do clero do séc. XIX no Piemonte. Santo Afonso foi o mestre de equilíbrio evangélico, de moderação, o autor que tinha a última palavra nas questões morais mais intrincadas, sempre preocupado com o bem do homem, tanto que se fala de "humanismo afonsiano".

O Marello pega muito de Santo Afonso, espalha os escritos dele no meio do povo, recomenda a leitura de seus livros, e ele pessoalmente o imita, escolhendo sempre de qualquer questão a parte mais moderada e equilibrada, para sempre ir ao encontro ao homem.


Podemos, pois, dizer que o Marello opera em si mesmo uma síntese harmoniosa entre a força de vontade de Santo Inácio, a mansidão e a bondade de São Francisco de Sales e o equilíbrio humano e evangélico de Santo Afonso.

O Marello não se refere explicitamente, a não ser poucas vezes a estes autores (Exemplo: Carta 23 e Escritos), mas tinha assimilado de tal forma o seu pensamento, que constitui o substrato de qualquer escrito; por isso conhecer o pensamento destes três mestres é uma verdadeira "chave interpretativa" do pensamento do Marello.

Para completar um pouco mais o quadro da cultura sobre a "Vida Religiosa" do Marello, acrescento que certamente ele leu as "Confissões" de Santo Agostinho; a "Regra" de São Bento; as "Homilias" de São João Crisóstomo; as obras de Santa Tereza e de São João da Cruz; o "Maná Espiritual" de Scupoli; as "Máximas Espirituais" de Rosmini; as "Conferências de Notre Dame" de Lacordaire; as "Conferências Espirituais" do Pe. Faber; o "Tratado da Verdadeira Devoção" de Montfort; a "Vida de São Jerônimo" de Bougand; a "Vida de São Carlos" de Sjlvair; os "Sermões" de Messillan; os "Pensamentos" de Pascal; os "Mártires do Cristianismo" de Chateaubriand; "Os Noivos" de Manzoni; e sobretudo a "Imitação de Cristo", livro que sempre levava consigo e que foi encontrado ao lado da cama com o sinal no capítulo "A Glória Celeste".

Esta bagagem espiritual sobre a vida religiosa de São José Marello oferece a ocasião ao atual pároco da Catedral de Ácqüi, Mons. João Gagloro, grande estudioso e admirador do Marello, de chamá-Io "Pequeno Santo Padre da Igreja".

Para nós é certamente motivo de satisfação e íntima alegria, mas deve ser sobretudo estímulo para imitá-Io.

Ele mesmo no-Ia recomenda: "Um bom livro espiritual, um bom diretor de consciência (e isto Deus pode suscitá-Io, segundo a necessidade, no último capelão de aldeia) e avante ... fechar os ouvidos às vozes do demônio e ouvir somente a voz de Deus que fala de mil maneiras a seus fiéis" (C. 19).


Ar
tigo publicado em "José, o Justo", jan.l1986, p. 61-64.

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